Eu queria roubar a felicidade das outras pessoas.
Me vem esse desejo depois de conversar com alguém e ver um sorriso. Ouvir algum
gracejo, mesmo que pequeno. Um desespero massivo grita dentro do meu peito e
como um vampiro sedento por sangue, eu deturpo até a ultima gota da alma
alheia. Isso em meus pensamentos, na minha linha de raciocínio enfraquecida e
ensimesmada. Roubo. Mas não de verdade. É uma ideia fugaz que se afasta de
minha mão quando penso poder tocá-la. Cometi o crime, mas não estou suja com o
sangue da vítima. E não há vítima, mas uma sombra que dobra a esquina, sorrindo
da minha ilusão.
O que eu vejo, no fundo do copo, é o reflexo de um
sorriso que há muito foi meu. Eu me engasgo com mais um gole, fazendo menção de
engolir a morte, mas continuo viva ao final da noite. Chorando sozinha no canto
da festa, olhando os caras bêbados serem carregados até o carro. Me arrastando
viela a baixo, com um anjo negro a me proteger do mal. Com minhas mãos destruídas e calejadas. Minhas chagas sanguinolentas.
Meu par de muletas que me levam ao leito do hospital.
Sem ter o que pensar. Sem ter o que dizer. Só com
aquele pensamento de que é se amaldiçoada. E que os seus anos de solidão serão para
sempre.