domingo, 2 de setembro de 2012

Par de muletas


Eu queria roubar a felicidade das outras pessoas. Me vem esse desejo depois de conversar com alguém e ver um sorriso. Ouvir algum gracejo, mesmo que pequeno. Um desespero massivo grita dentro do meu peito e como um vampiro sedento por sangue, eu deturpo até a ultima gota da alma alheia. Isso em meus pensamentos, na minha linha de raciocínio enfraquecida e ensimesmada. Roubo. Mas não de verdade. É uma ideia fugaz que se afasta de minha mão quando penso poder tocá-la. Cometi o crime, mas não estou suja com o sangue da vítima. E não há vítima, mas uma sombra que dobra a esquina, sorrindo da minha ilusão.
O que eu vejo, no fundo do copo, é o reflexo de um sorriso que há muito foi meu. Eu me engasgo com mais um gole, fazendo menção de engolir a morte, mas continuo viva ao final da noite. Chorando sozinha no canto da festa, olhando os caras bêbados serem carregados até o carro. Me arrastando viela a baixo, com um anjo negro a me proteger do mal. Com minhas mãos destruídas e calejadas. Minhas chagas sanguinolentas. Meu par de muletas que me levam ao leito do hospital.
Sem ter o que pensar. Sem ter o que dizer. Só com aquele pensamento de que é se amaldiçoada. E que os seus anos de solidão serão para sempre.