terça-feira, 30 de julho de 2013

Antes de dormir



Dou um tempo. Pra você fazer algo do seu interesse. Tento não pensar o que isso poderia ser. Ignoro ideias. Prendo minha atenção em alguma banalidade. Meus pensamentos se esbarram, assustados. Não consigo seguir uma linha reta. Uma bagunça por dentro. Tento continuar caminhando, meu inimigo à espreita, no corpo de uma mulher simpática, num grupo de amigos que passam ao meu lado. Estremeço e tento conter o impulso de correr. Não posso. Continuo caminhando, suando frio, o coração oscilando. Avisto minha mãe, lhe dou um abraço apertado e uma lágrima despenca dos olhos. Estou com medo. Tento comer algo, estou irritada demais para conversar. Irritada para respirar. Essa ansiedade me deixa nauseada. Este corpo, esta vida. Me sinto uma estranha entre as pessoas. Penso em morrer. Acendo um cigarro, as mãos tremendo. Não, eu não posso sair de casa nunca mais. Não consigo terminá-lo, estou desnorteada. Estou assustada. Deito na cama, tento organizar os pensamentos, mas sou um atropelo. Formas e rabiscos. Ideias estranhas. O quarto escuro é meu refúgio, meu porto seguro. Nada poderá tocar em mim. Fecho os olhos. Alguém cantando. Meu Deus, eu não suporto isso. Calem a boca. Mas a casa está silenciosa. Você tem que se matar. Tento conter a respiração. Não, eu não posso dar ouvidos a isso. Levanto da cama, caminho pelo quarto, minha mãe pergunta se eu não vou tomar o remédio. É o quinto dia livre das drogas. Não vou tomar isso nunca mais. Ela escutou a voz? Será que ela ouviu? Não. Ninguém ouviu. Mas eu sou alguém, não sou? Volto pra cama. Alguém tenta conversar comigo sobre fumar tanto. Não respondo. Alguma coisa batendo na parede insistentemente. O diabo não me deixa dormir. Batidas e mais batidas. Sento na cama, tento chorar, mas não consigo. Olhos vazios. Tome seu remédio. Ignoro minha mãe e continuo a fitar o nada. Pensando seriamente em obedecer a voz e acabar com tudo aquilo. Respiro fundo, volto a deitar. Tento conter a ânsia, viro de um lado para o outro. Desespero. O quarto escuro. Batidas. Enfim, eu adormeço.


terça-feira, 16 de julho de 2013

Tarde morta




Daria minha vida para sentir algo. Diferente de quando eu estou em coma, sobre a cama, sonhando uma realidade, misturada ao caos do subconsciente bagunçado. Fumo meus cigarros, em silêncio, olhando através da janela. Neste quarto escuro, desvio a atenção para alguma coisa que tente me tirar da inércia. Tem sangue. Dor. Mas eu não sinto nada. E até se alguém por aqui morresse, eu continuaria presa nesse universo gelado. Respirando, mas ao mesmo tempo morta.
Desisto da humanidade. Não quero atender ao telefone. Não quero dar notícias e nem sair do quarto. Não consigo pensar em me alimentar e nem mesmo sentir a brisa do lado de fora. Fecho a janela, as cortinas, só a fumaça do cigarro vagueando pelo ar e uma promessa de que eu teria um futuro melhor. Tudo jogado no lixo.
Um pássaro bate contra o vidro. Um corpo morto desliza até cair na grama. Fico olhando as cortinas escuras, os lanhos de sangue escorrendo, mas devagar. Solitária e fria como um iceberg. Mergulhada e aprisionada de fundo de um oceano distante. Eu deveria cortar os pulsos agora e descontar toda a minha raiva em algo que valha a pena. Se eu ferir alguém que não seja eu, eles nunca entenderiam. Eles não enxergam com meus olhos. E não sentem como eu sinto.
Olho essa estranha no espelho. Esses olhos ocos e cheios de lodo. Um choro que secou há tanto tempo. Isso não pode ser real. Quero dizer, existem monstros do outro lado? Eu poderia quebrá-lo com um soco. Poderia quebrar-me e ficar olhando os pedaços sangrando no chão. Não quero sair daqui. Não quero ver luz. Se eu pensar com vontade, poderia simplesmente deixar de existir? Eu queria poder desaparecer. E cortar os pulsos. Eu já morri. Mas porque eu continuo aqui? Tudo que eu posso sentir é raiva.
Tudo que as pessoas tem de mim é raiva.
Volto pra cama e acendo um cigarro. O dia escorrendo, minha vida deslizando na ponta da faca.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Miudezas e banalidades.

Ninguém em casa. Mas aquele não era meu lar... Eu fico olhando o abajur e pensando em como seria bom não ter os mesmo sonhos repetidos. Coloco o espelho em outra posição, não quero olhar meu reflexo. Aquela garota pode estar me observando na calada da noite. Não. Eu não quero ver ninguém. A irritação me estrangula e me faz cuspir desaforos. A raiva me coloca em um nível onde a única saída é machucar alguém - mesmo que esse alguém possa ser eu. Estou cega. Mas consigo falar direito. Isso é tão estranho. Sobrevivi a um divórcio. Uma mudança de casa tão brutal como um estupro. Mas continuo nas minhas "exagerâncias". O copo sempre estará vazio. Este corpo sempre estará vazio.
Chego ao limite e vou adiante. Com minhas roupas de frio, no meio da vegetação molhada do sereno. Está escuro. Um pássaro gorjeia. Eu devo dizer que não queria ter brigado com ninguém. Eu queria ter fingido que não ouvira nada daquilo. Mas você deve entender que algumas coisas não podem ser controladas. Eu brigaria com você outra vez e outra vez. Eu xingaria sua mãe e mandaria você se foder, não importa se isso me rendesse um soco na boca. Esqueci de dizer que esse cachorro não para de latir nunca. Mesmo que os latidos sejam substituídos por ganidos. Ele vai continuar atormentando.
Caminho mais um pouco, estou suada. Você deixou uma marca em meio seio. Um rasgo na alma, tão grande, que caberia uma enciclopédia. Se eu sou a garota que nunca está satisfeita e se eu deveria deixar de ser tão violenta com as pessoas. Foda-se. Continua escuro. Perdi um dia de trabalho porque estava dopada demais para levantar da cama. E não importa o quanto eu vá tossir, eu continuarei fumando a mesma quantidade de cigarros, todos os dias. Marquei de tomar umas biritas com a dona Morte. Nesses segundos longos, eu só queria abraçá-la. Abraçar algo.
Quando você vai finalmente parar de desistir das coisas? Quando esse buraco em meu cérebro vai ser tampado? Sim, eu acho que aquela gente queria comer o meu fígado. Não aguento as reclamações de que eu não faço nada certo. Corto até sujar todo o lençol de sangue. A raiva apertando meu pescoço. A primeira palavra que eu te digo é um insulto. Porque você é o filho da puta que eu amo. Tão escuro e frio... Se eu pedir pra recomeçar, Deus poderia me dar um cérebro novo? Você já tomou seus remédios? Essa é a porra da frase que me dizem quando eu começo a falar algo. Estou tão cansada dessas pílulas. Cansada de ter que viver essa mesma vida de merda. Foda-se o monitor, a gerente e toda aquela cambada. Foda-se. Querida, você vai ficar pulando de emprego em emprego? Eu discutirei outra vez. E outra vez.
Miudezas e banalidades. Todas as coisas que eu deixei no canto enquanto tentava levar a vida numa boa. Agora parece tarde demais.