Eu me sinto bem menos especial do que dizem que eu sou. Os pensamentos
irreais, como diria a Cristina. Não consigo visualizar seu rosto em minhas ideias.
Eu mal consigo organizar uma frase bem elaborada. Veio um monstro e comeu a minha
inspiração. Regurgito essas palavras desengonçadas, numa violência que me assusta e
me faz sentir dor. Só queria exterminar essa minha proeminência desastrosa de viver
do jeito que eu vivo. Esse limiar tão baixo. Essa capacidade mínima de lidar com
frustrações e rotina. Eu queria que a minha família soubesse o quanto eu tempo lutar
contra mim mesma. Lutar contra essa pedra que me puxa para a inércia, enquanto a
vida passa. As pessoas mudam. Os amigos vão embora. Se eu não duro nos empregos,
por favor... você consegue enxergar a minha alma doente? Tudo que eu queria era
achar um lugar no mundo. Eu sei, eu sou inadequada a este universo. A essa sociedade.
À minha família. Eu tomo o remédio e espero ficar bem sonolenta, pra cair na cama
e não pensar sobre a minha vida. Tento ignorar que estou num problema, me afogando
e morrendo nele. Tento esquecer que por dentro, eu sou uma mulher triste – não mais
uma garota. Sou um rabisco sem forma, que se molda muito malmente às pessoas. Que
tenta satisfazer um desejo de ser boa o suficiente e agradar a todo mundo. Ter um
lugar pra voltar. Um ombro. Encontrar-me. Eu estou perdida, com frio, medo e dor.