Cheguei em
casa. Sozinha, corri para o quarto e fiquei lá. Tire as duas cartelas do bolso
e fiquei olhando para elas. As pequenas e lindas pílulas brancas. Vinte
comprimidos. Eu dormiria muito, muito. Mas seria o suficiente? Deitei na cama e
esperei o mundo parar de girar. Foram longas horas. Eu quieta, calma, o
pensamento deitado ao meu lado, olhando para mim, esperando até que eu tivesse
um pouco de coragem. O tempo esfriou e uma penugem fúnebre enfeitava a copa das
árvores do quintal. Meu pai ainda não chegara. Ninguém em casa. Só as
empregadas preparando o jantar, eram quase oito da noite. Eu me mataria.
Antes,
porém eu tinha que fazer uma ligação. Desejar boa sorte a Pedro, já que eu não
assistiria sua luta. Disquei os números, sem ter certeza se ele me atenderia.
Esperei. Não demorou e ele atendeu.
- Helena,
você, me ligando?
Eu ri.
- Pois
é... Seu idiota. Eu só queria te desejar boa sorte na luta.
- Como
assim, você não vai?
Fiquei em
silêncio por alguns segundos.
- Não...
acho que não vou não...
- E
porque? Eu queria tanto que você fosse...
-
Desculpe, não vou poder ir.
- Porque?
– Ele continuou.
Já não
fazia diferença o que ele pensaria de mim. Ou o que faria, já que não havia
nada a ser feito.
- Vou me
matar.
- O quê,
Helena, como assim?
- Tchau.
Desliguei
o telefone e corri para o quarto.
Tirei a
garrafa de vodka da bolsa e calmamente comecei a engolir as pílulas. Uma por
uma, bem devagar. A cada pílula, uma golada de vodka e o pensamento de que eu
finalmente abandonaria aquele universo asqueroso e cruel ao qual eu me
infiltrara. Seria perfeito, seria
indolor. Eu dormiria. Fernando não conseguiria me acordar para ir a escola. Mortos
não assistem aula, nem acordam pela manhã, ou saem por aí fazendo idiotices que
não levam a nada. Acendi um cigarro, depois de engolir as vinte pílulas, fiquei
sentada no chão, fumando, sentindo a brisa gelada da noite e a cabeça começar a
pesar. O cigarro acabou. Eu acabara. Era o final de uma história triste, mas
sem melodramas e frases de efeito. Lembrei o meu saudoso Wether, e imaginei o que ele sentira antes de puxar o gatilho. Seria
a mesma coisa que eu sentia naquele instante? Eu estava bêbada e sonolenta
demais para ir além com aqueles pensamentos. Aos poucos, pensando no meu
protagonista, meu corpo foi tombando, decaindo como se eu fosse uma boneca de pano.
Então recostei o rosto no piso e perdi totalmente a consciência.