sábado, 30 de junho de 2012

A Solidão


Dançando lentamente em um quarto vazio
Será que a solidão pode tomar o seu lugar?
Eu canto uma tranquila canção de ninar para mim mesma
Esqueço você e deixo a solidão entrar

Para consumir meu coração de novo...

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Inferno


To quieta, na cama, ouvindo wake up alone. E me sobe um ódio fodido. Porque a porra da Winehouse teve que morrer? A puta que me pariu. Meus olhos ardem. Meu corpo dói. Eu quero que o mundo se foda. E que todo mundo nessa merda de planeta sofra. Porque é só o que todo mundo por aqui anda merecendo. Até eu. Eu me ferrei esses anos todos, mas eu acho que a porra da culpa é minha mesmo. Mãe, foda-se. Alex, foda-se. Mundo, vai tomar no cu. Eu to cansada. Eu não dormi direito. Eu não consigo me concentrar nas coisas. Na quarta feira eu chutei as coisas, com tanto ódio por não ser amada. Agora eu quero que o amor se exploda. Se foda. Morra. E não me encha o saco. To há dois meses sem uma gota de álcool no sangue. Paz ao mundo, menos uma bêbada largada na sarjeta. A vontade que eu tenho é de mandar os remédios a puta que pariu e encher a cara. E ficar com qualquer um. E foder o resto dessa porra que eu chamo de vida. Só isso. Só isso que eu queria. E dormir. Eu queria dormir direito. Só isso. Inferno.


quinta-feira, 28 de junho de 2012

Ansiolíticos e Vodka


Cheguei em casa. Sozinha, corri para o quarto e fiquei lá. Tire as duas cartelas do bolso e fiquei olhando para elas. As pequenas e lindas pílulas brancas. Vinte comprimidos. Eu dormiria muito, muito. Mas seria o suficiente? Deitei na cama e esperei o mundo parar de girar. Foram longas horas. Eu quieta, calma, o pensamento deitado ao meu lado, olhando para mim, esperando até que eu tivesse um pouco de coragem. O tempo esfriou e uma penugem fúnebre enfeitava a copa das árvores do quintal. Meu pai ainda não chegara. Ninguém em casa. Só as empregadas preparando o jantar, eram quase oito da noite. Eu me mataria.
Antes, porém eu tinha que fazer uma ligação. Desejar boa sorte a Pedro, já que eu não assistiria sua luta. Disquei os números, sem ter certeza se ele me atenderia. Esperei. Não demorou e ele atendeu.
- Helena, você, me ligando?
Eu ri.
- Pois é... Seu idiota. Eu só queria te desejar boa sorte na luta.
- Como assim, você não vai?
Fiquei em silêncio por alguns segundos.
- Não... acho que não vou não...
- E porque? Eu queria tanto que você fosse...
- Desculpe, não vou poder ir.
- Porque? – Ele continuou.
Já não fazia diferença o que ele pensaria de mim. Ou o que faria, já que não havia nada a ser feito.
- Vou me matar.
- O quê, Helena, como assim?
- Tchau.
Desliguei o telefone e corri para o quarto.
Tirei a garrafa de vodka da bolsa e calmamente comecei a engolir as pílulas. Uma por uma, bem devagar. A cada pílula, uma golada de vodka e o pensamento de que eu finalmente abandonaria aquele universo asqueroso e cruel ao qual eu me infiltrara.  Seria perfeito, seria indolor. Eu dormiria. Fernando não conseguiria me acordar para ir a escola. Mortos não assistem aula, nem acordam pela manhã, ou saem por aí fazendo idiotices que não levam a nada. Acendi um cigarro, depois de engolir as vinte pílulas, fiquei sentada no chão, fumando, sentindo a brisa gelada da noite e a cabeça começar a pesar. O cigarro acabou. Eu acabara. Era o final de uma história triste, mas sem melodramas e frases de efeito. Lembrei o meu saudoso Wether, e imaginei o que ele sentira antes de puxar o gatilho. Seria a mesma coisa que eu sentia naquele instante? Eu estava bêbada e sonolenta demais para ir além com aqueles pensamentos. Aos poucos, pensando no meu protagonista, meu corpo foi tombando, decaindo como se eu fosse uma boneca de pano. Então recostei o rosto no piso e perdi totalmente a consciência.



Liberdade


Livre, finalmente livre. Ou então em um estado ilusório e vívido de liberdade. Eu assinei um pacto com o demônio para ter um pouco de paz, e ele me prometeu deixar a sua lembrança ardendo no fundo do caldeirão de satã. Eu nem ligo. E foda-se a sociedade e se eu sou louca e se eu tomo remédios demais. Na boa, eu estou completamente livre de tudo isso. Me sinto maior. Melhor. Capaz de alcançar além do horizonte e retornar com as mãos cheias de ouro. Nada para me deter. Ninguém preso em meu coração, nada para me preocupar. Só a lembrança de uma garotinha triste, sentada num banco da praça.


terça-feira, 26 de junho de 2012

Pagando pelos pecados


Hoje foi um dia proveitoso. Pode parecer sádico, mas parece que eu encontrei um pouco de luz nessa escuridão toda. Sou bipolar. A princípio, foi o que me disseram. Eu suportei o dia inteiro num estado de animação agradável, mas agora que anoiteceu, me pergunto onde esses sentimentos se esconderam. Sou um amontoado de culpas e segredos. Palavras escondidas, lembranças tórridas. Eles não sabem, mas eu sou uma garotinha assustada e eu só quero voltar para casa ao fim do dia. E ver as coisas do jeito que eu deixei. Apreciar as minhas pequenas coisas bobas de menina desocupada. Livrar-me da carga e sentar à beira da cama, lendo meu livro preferido, fazendo divagações sofríveis entre o passado e esse nebuloso presente. É bem aceitável que eu tome algumas pílulas e deite para dormir, mas nada irá me afastar do desconhecido preso ao futuro. Nada me livrará de pensar nele, noite após noite. Pagando meus pelos meus pecados.



segunda-feira, 25 de junho de 2012

Cessação de hostilidades


A paz tem um gosto que muito me agrada. Estou quieta, em minha cama, sorvendo cada pedacinho. Feliz. Ou num estado que pode ser comparado à felicidade. Sonolenta, apreciando a sensação de dever cumprido com o resto do mundo. Eu estou voando dentro da minha mente, e alçando um pouso macio num outro universo que eu costumo chamar de paraíso. Sem amarras e pensamentos viscosos. Só eu, comigo, e meus sapatos de menino. Livres do cortejo fúnebre e com a impressão de que vou ter um lindo próximo dia. Haverá sol e isso muito me anima.

domingo, 24 de junho de 2012

Obrigada


Não sei como dizer essas coisas. Até porque essas coisas não podem ser ditas. Ou pensadas. Ou imaginadas. Estou no âmago do fundo do poço. E por aqui é tudo meio escuro. É gelado. Como minha alma desfalecida. Falta uma coisa que eu perdi. Melhor dizer a verdade e te acusar de ladrão. Ligar para a polícia e dizer, aos prantos, que você roubou o sentido da minha existência. Chorar as lágrimas que eu aperto com a ponta dos dedos, para que não se encontrem com o chão. Era de se esperar que eu fraquejasse e lhe dissesse que não tenho vivido bem. Jogar diante de você as cartas opostas a tudo que você tem me dito. Estou bem, a minha vida está uma maravilha, eu tenho uma namorada e um emprego de estagiário. Você também tem uma faca e uma vítima morta do outro lado da cidade.
Essas coisas não deveriam ser ditas. Porque ao dizer isso, me envolvo bruscamente numa batalha de amor e ódio. Numa briga comigo mesma, onde não importa o que aconteça, eu saio derrotada. Sangrando. Olhando ao redor, sem entender como e porque cheguei a esse ponto. Lágrimas me escorrem dos olhos. Eu só posso parabenizá-lo por destruir mais um dos meus dias estáveis. Obrigada por olhar pra baixo e por sorrir a sua alegria costumeira de quem tudo suporta. Voltarei pra casa com as mãos abanando e uma expressão que muito vagamente tenta explicar certas coisas que não sei dizer. Apenas sinto, profundamente.

O pior dia da semana


Domingo à noite, o tempo parou, depois que as pessoas voltaram da igreja. É dia de imaginar o paraíso. Mas ninguém gosta de voltar pra casa, porque essas noites de domingo deixam uma sensação de que falta algo. E isso assusta todo mundo.
Ao contrário das pessoas normais, eu sou aquela que fica pensando nisso. E não durmo. Fico na cama, sofrendo, suando frio. Embora seja começo de segunda. Então eu me dou conta de que é assim a semana inteira. Lembro que você já deve estar dormindo, na sua cama espaçosa, sonhando com a sua nova namorada. Mas isso não me dói. Não como eu acho que deveria doer. Esse vazio era o mesmo quando eu tinha você, apesar da solidão, é tudo que me resta. Tudo que faz companhia nesses tempos.
Me sobrou um amor duvidoso. Sinto cheiro de encrenca e lágrimas. Vou molhar o travesseiro com os meus olhos cansados e encher meus amigos imaginários com as confissões de culpa que eu engoli esse tempo inteiro. Vou vomitar meu coração e repudiá-lo. Vou acabar comigo. Como eu tenho feito. Por que eu sabia. No fundo, embora eu fosse feliz, eu sabia. Noite de domingo, essas noites nunca terminam. Daí quando as pessoas descansavam aliviadas pelo sono, eu fico aqui, pensando que você já está dormindo. Fico quieta, chorando. Sem dormir, sem viver. Sem uma parte de mim.

sábado, 23 de junho de 2012

Depois do amor

Você só tem tempo para uma conversa sobre o tempo. Se vai chover ou se fará sol. Depois você se encolhe, envergonhado, e se abraça ao seu casaco escuro, desviando o olhar para outra coisa que não seja a minha figura. Depois do amor, somos amigos então... Eu olho de relance para os seus olhos, e acho que você está sério demais. Quieto. Tudo que você quer, é ter uma boa desculpa para ir embora, caminhar apressado de volta a sua redoma de silêncio, e talvez ligar para algum amigo nosso e perguntar se eu finalmente cometi suicídio. Até porque seria uma noticia pequena. Não sairia no jornal. Nem na TV. Você só precisa saber se eu estou viva e depois agradecer a Deus pelo pouco de juízo que me restou. Mas não é um agradecimento sincero, porque eu sei, no fundo, no íntimo do seu coração, você esperava que eu morresse de uma vez. Pra não ter que saber de mim. Perguntar sobre mim. Você quer deixar essa parte da sua vida totalmente escondida de você mesmo. Porque eu não sirvo para boas recordações. Eu não presto para coexistir com a passividade do amor. Qualquer criatura, em sã consciência, compreenderia isso sem que você precisasse se explicar ou pedir desculpas. Não valeria a pena. Você tem razão. E então, no auto do meu egocentrismo, eu continuo viva, assombrando a sua memória como um demônio enraivecido e determinado. Foi o que a minha vida se tornou, afinal, um motivo para você dormir decepcionado. A razão para voltar aos cigarros e aos pensamentos sobre o vazio da nossa real existência. É um fato. Eu me dou conta. Sempre. Porque eu vivo comigo há mais tempo que você e eu compreendo o quão pesado é este fardo, porque eu o carrego, de veras. Sou eu. É a mim que dizem isso. Na minha cabeça. No meu coração. Eu sei que deveria estar morta, mas viver foi a única forma de me vingar de você. É a única forma que eu tenho de me autodestruir de maneira aceitável. Sádica.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Mortos não precisam de terapia


Eu sou aquela filha da puta que fica por último. Aqueles remédios todos, bom, eu acredito que deveriam ter feito algum tipo de efeito em mim. Mas tudo que eu sinto é a mesma velha sensação de estar à espera da morte. Com as mãos acorrentadas e os pés grudados no chão. Não há fuga, não há caminho e não há para onde ir. Daí eu me pego pensando numa época em que achei que era feliz, e me amaldiçoo por ter jogado tudo no lixo. E volto a me sentir incapacitada para novas e boas comoções. Infértil. Sem cor.
Morta.
E ninguém vai entender os meus motivos e porque eu simplesmente precisava me destruir. Embora eu tente explicar isso ao cara da terapia, ele surge com respostas e figuras que eu nunca poderia ter, ou pensar. Ele surge com um modelo de garota que não combina com o que eu penso ser. Volto a perder a imagem que eu tinha de mim, e me pergunto em que ponto exato do caminho, eu deixei escapar o fôlego da felicidade. Ou do contentamento. Da paz.
Eu só estou morta.
E mortos não precisam de terapia. Eles precisam de vida. É o que tenho almejado. Penso nisso antes de dormir, depois de engolir as pílulas, antes de fechar os olhos para mais uma noite angustiante. Eu tento pensar na minha vida. Me sobra uma vontade imensa de abrir uma fenda nos pulsos, superficial e traiçoeira. Eu caio em mim, num sono premeditado e amargo. Acordo com a impressão de que estou me desfazendo com o passar do tempo. Acho que estou me decompondo.



Lembranças e vodka


Eu fico pensando em como foi o seu dia. Sem mim e sem a sombra do que deixamos para trás. Você deve imaginar que eu sempre volto àquele ponto. O ponto onde as coisas eram divertidas e empolgantes. Aquelas velhas lembranças que me perturbam e não me deixam dormir à noite.
É o que eu tenho sido pra mim mesma. Um fantasma. Uma sombra numa viela mal iluminada. Foi onde eu deixei meu corpo descansar. Sentei na sarjeta, fumando um cigarro com gosto de menta, e me afastei para o meu mundo de ideias e suposições. Presa a uma garrafa de vodka e a premissa de que eu destruiria qualquer coisa com um grito aterrador. Sem medo, sem vergonha, sem pensar nas consequências. Do jeito que eu tenho vivido a minha vida esses anos todos.
Como num passe de mágica, eu vou reviver nossas confissões de felicidade, e sorrir, embriagada, como quem nunca sentiu isso antes. Como uma criança. E você vai achar que eu finalmente enlouqueci. Mas não haverá resposta para as minhas perguntas. Ninguém vigiando meu sono. Só a mesma e complacente consciência de que tudo foi tragicamente jogado no lixo. Por mim. Por minhas mãos. Meus lábios. E o inferno chegará antes do último gole. Me fará companhia até o sono chegar e se apossar do meu estado de consciência. Embora eu ache que fui longe demais, ainda permaneço quieta no mesmo lugar.
Pensando. Repensando. Enxugando as lágrimas e o suor. Solitária na viela mal iluminada dos meus pensamentos e recordações.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Goethe


No sábado, eu decidi que não iria à casa de Angelina. Eu estava cansada e acordara me sentindo triste. Solitária. Sim, eu me sentia assim constantemente, mas ninguém sabia. Nem eu gostava de saber. Era melhor mascarar tudo com as minhas rebeldias, embora houvesse uma guerra árdua no meu coração, onde eu sempre saia meio morta. Ferida. Ninguém desconfiava.
Fiquei em casa lendo Goethe, eu adorava aquele drama todo. Já havia lido aquilo umas quatro vezes, mas não me cansava. Lia de novo. Sabia as frases de cor e salteado. Considerava uma história triste, porque havia suicídio e amor não correspondido. Era uma dor, um sentimento que só eu poderia sentir. Eu sentia aquilo, eu queria morrer de verdade algumas vezes, e achava que Werther fora corajoso em se matar. Eu não tinha coragem, tudo que eu fazia era cortar os pulsos superficialmente e adormecer com o sangue escorrendo e a dor.
Usava uma munhequeira no pulso. Só tirava quando não havia ninguém vendo, aquilo me envergonhava. Eu deveria ser forte e aparentar ter algum tipo de força. Era isso ou ser devorada pelos canibais com a boca suja. Fazia tanto tempo... tantas cicatrizes. Tantas noites sem dormir pensando nas pessoas que eu amava. Pensando que não deveria amar ninguém e simplesmente esquecer a forma de amar alguém. Nunca esqueci. Embora, com o passar dos anos, tenha aprendido a não me apegar aos outros. Os cortes diminuíram, mas eu sempre soube que eu nunca conseguiria parar.
Angelina vira meu pulso uma única vez na vida. Eu estava bêbada e havia começado a chorar no banco da praça, pensando em minha mãe. Morta. No meu pai que a matara. A munhequeira esquentava o corte, o sangue a fizera se apregoar na minha pele. Puxei-a com toda a força que tinha e joguei-a no chão. Angelina havia bebido comigo, mas estava mais sóbria do que eu. Nunca esquecerei a forma com que ela me olhou.
- Você fez isso?
Eu fizera muitas coisas ruins. A grande verdade, é que eu me sentia extremamente péssima com tudo e com todos. O meu universo interno era habitado por criaturas raivosas e cheias de dor. Por minhas diversas faces. Meus diversos olhos. Meu coração em rebuliço. Eu deveria me cortar.
- Foi o diabo que fez isso.
Peguei a munhequeira do chão e coloquei-a de volta no pulso. Parei de chorar. Não adiantava chorar. Chorar não consertava o que estava quebrado. Chorar não me fazia ser uma garota melhor.