quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Helenices

Em mil quinhentos e biscoito de coco.

Eu queria que você dissesse oi. Ou então que continuasse a sorrir enquanto eu chego. Talvez eu seja uma garota sem graça, quem sabe você pudesse me dizer que preferia não me ter por perto. Como quem não quer nada... eu queria que você tentasse conversar comigo, ou então que me desse aquele olhar de que eu fiz certo e que você gostou. Um dia, talvez um dia... eu queria que você ligasse pra dizer que sentiu minha falta. Você poderia querer me ouvir cantar... algum dia. Eu queria. Talvez eu seja uma garota sem graça. E fria, mas é só por fora... sou movida por sentimentos bruscos e sensações incompletas. Vivas e cheias de suor. Eu sempre desejei que você me chamasse pelo nome. Eu não queria te deixar irritado, nem permitir que você fizesse aquela cara de tédio quando eu apareço. Eu pediria a você que sorrisse um pouco... mas eu não queria que fosse um sorriso mentiroso. Você poderia enxergar meus olhos e ver por entre eles, tomar o meu amor pelas mãos... talvez eu quisesse que você me roubasse, e fosse embora comigo. Quem sabe eu quisesse ter a sua companhia, ter você como amigo. Eu queria que fosse fácil compreender minha fisionomia, e que você percebesse que eu sou tímida. Talvez eu seja sem graça. E fria, mas é só por fora... sou movida por sentimentos bruscos e sensações incompletas. Vivas e cheias de suor. Sangradas e carregadas de dor. Cheia de intimidação.






Luís



Eu sei que eu já devo ter mencionado que as suas visitas me salvaram muitas vezes, mas eu nunca vou deixar de citar isso. Pelo menos agora, dessa vez. A minha mãe acha que você tem pena de mim e por muito tempo eu também acreditei que você continuou sendo amigo por que achava que seria errado me abandonar. Seja o que for, me ajudou bastante. Quando eu era só uma universitária deslocada naquela faculdade longe de casa, você apareceu com seu sorriso agradável e se ofereceu pra ir comigo até o a unidade dez. As minhas mãos tremiam e por mais que eu tentasse sorrir, a minha expressão de assombro era nítida. Mas você não se importou – aparentemente. Você me deixou na porta da sala e disse que havia sido um prazer me conhecer. Isso me encorajou.
Fiquei surpresa ao ver você outras vezes por ali, já que estudávamos em unidades diferentes. Eu não queria agir como uma caipira perdida, então tentava fingir que sabia o que estava fazendo. Você dizia, tantos estudantes de psicologia juntos, vão acabar entrando nos meus pensamentos – e eu ria, porque você agia feito um bobo pra me deixar menos tensa. Só não entendia o motivo de você insistir em conversar comigo, já que eu não falava quase nada. A verdade é que eu gostava de ouvir sua voz e ver a maneira com que você se expressava. Ficava imaginando que seria bom escrever sobre isso, mas não tinha coragem de analisar minuciosamente as minhas impressões sobre você.
Quando você me convidou para ir à sua casa, achei que aquilo não era sério. Você sabia pouco de mim e as outras pessoas me evitavam porque achavam que eu podia causar problemas. Eu sei, as pessoas falavam de mim pelas costas. E se eu causasse problemas? Você tinha o poder me desfazer. – Espero que não se importe, só temos batata frita e carne de hambúrguer – você falou, meio envergonhado. Não importava se não tivesse nada. Não importava se você morasse debaixo da ponte. Com uma gentileza absurda, você me mostrou sua coleção de CDs, os desenhos míticos que você fazia e as medalhas que você ganhou em campeonatos de natação. Seus pequenos tesouros. Eu estava feliz porque você os havia mostrado a mim.
- A maioria das pessoas pode acreditar que você é fria... Mas eu percebo a sua sensibilidade pela forma que você olha para as coisas.
A sua voz me assustou, num primeiro instante. De alguma forma, você estava ligado a mim e podia ver meus pensamentos bagunçados. Tomei ar. Acho que você não se lembra, mas eu fiquei olhando seus sapatos por um longo tempo, esperando que você trocasse de assunto e agisse como se não tivesse dito nada. Foi o que você fez. Eu amava você. E nem importava se eu estava me precipitando. Eu amava e poderia ter-lhe dito aquilo naquele mesmo instante, se você me perguntasse. Mas você não perguntou. Me ofereceu café e riu quando eu disse que não tomava.
Eu sabia que colocaria tudo a perder. Como das outras vezes, incontáveis, trágicas. Na esperança de sanar o buraco congênito que havia em minha alma, eu destruiria a sua forma de gostar de mim. E você iria embora. Sou egoísta e não gosto de perder pessoas. Sou inconstante e passo longe de certezas absolutas. Você esteve ao meu lado depois que o tempo ficou realmente turvo. Cuidou dos meus ferimentos, me deu abrigo depois das bebedeiras, me consolou quando as circunstâncias me forçaram ao isolamento. E se eu por acaso confessasse a você, o que eu sentia? Qualquer pessoa se sentiria sufocada. Eu já te sufocava. Você deve ter lembranças horríveis das minhas ligações durante a madrugada. As coisas que eu te dizia e o sofrimento por que eu te fazia passar – me culpo. Mas eu não conseguia parar. Não podia simplesmente parar. Quando o mundo entrava em caos, e eu estava com você, comendo torta nas proximidades da faculdade, e você largava tudo para me pegar pelos ombros e abrandar o meu choro. Eu queria lhe dizer que eu não entendia nada sobre aquilo. E que não conseguia me conter. Eu não conseguia me conter. Agradeço a sua paciência. Agradeço o tempo devotado a mim. Mas hoje, neste dia... preciso lhe dizer que estou cansada de me sentir assim. Você me trouxe momentos de felicidade, mas nada nesse mundo poderia devolver a mim o que foi roubado. Isto é uma carta de adeus, à única pessoa que eu amei verdadeiramente e a quem poderia dar a vida. Espero que você me perdoe. Espero que você não odeie. As pílulas me aguardam para um sono reconfortante e onde não há mais dor, sofrimento e vazio.

Verônica.



terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Sorvete de Flocos



- Eles foram atraídos pela podridão... - Mirei os olhos do outro lado da rua, na enorme casa de tijolos marrons.
- Quem poderia imaginar que o velho Pedro poderia fazer tal coisa. 
- Achei que ele fosse só um homem reservado. 
Luis se aproximou dos vidros da janela e olhou para o mesmo lugar que eu.
- A vida já não era suficiente para ele.
Sentei na beira da cama, com os olhos voltados às minhas mãos pálidas e às minhas unhas transparentes.
- Eu o admiro pela coragem... Não importa o que você ache, eu acredito que ele foi corajoso.
- Você acha que se matar é um ato de coragem?
Permaneci quieta por alguns segundos.
- Sim.
Luis respirou fundo, piscando devagar.
- Esses pensamentos outra vez?
- Que pensamentos?
- Não se faça de boba.
Emudeci. Luis sentou-se ao meu lado.
- Puxar o gatilho é fácil demais, Verônica...
- Existir às vezes é um problema.
Luis ignorou meu comentário e pegou em minhas mãos.
- Onde estão seus poemas? Há tempos eu quero ler alguma coisa sua e você só me enrola...
- Não consigo escrever nada coerente.
- Coerência pra quê? Sua falta de sentido sempre me agradou.
- Será que o Eduardo sente a minha falta?
Luis soltou minhas mãos.
- Quem, seu antigo psicólogo?
Assenti.
- Não sei dizer... mas porque isso importaria agora?
- Às vezes eu penso nisso.
Luis se levantou e caminhou até a estante de livros.
- Você não deveria gastar tanta energia mental com esse tipo de pensamento... se as pessoas sentem a sua falta, ou não.
- Você é um idiota.
Ele ficou calado, me olhando por algum tempo. Eu me dispersara, Luís havia me irritado.
- Eu não vou deixar você. Entenda.
Escondi o rosto com as mãos. Luis voltou a sentar-se ao meu lado.
- Quer sorvete de flocos? Eu posso comprar pra você.
Olhei para ele, pensativa.
- Você volta antes de anoitecer?
- Volto.
Fiz que sim com a cabeça.
Luís me beijou na testa e saiu.
Observei-o alcançar a rua, seu casaco escuro e sua postura ereta. Logo que ele dobrou a esquina, voltei a olhar a casa do morto, seus tijolos marrons e sua aparência taciturna. Ele fora corajoso. A corda no pescoço, os dias desaparecido. Mas a tristeza havia ido embora. Sorri e deitei sobre a cama, Luís traria sorvete.

...

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

O meu amor e a boneca

Eu sei que você tá mentindo. Eu sinto a minha pele se rasgar, enquanto espero o horario do remédio. Adoeci com o tempo frio, alguém roubou a minha espinha dorsal. Sou um peixe de olhos mortos. Um vaso trincado. Estou em chamas. E alguma coisa que mora no escuro, rondando os corações semi arrancados, alguma coisa... Esperando me ver passar. Tenho tido a impressão de que posso flutuar um pouco. Eu abro um corte e estou voando. Olhando aquele corpo deplorável com um olhar vazio através da janela. Penas de pássaros dorminhocos. Lembranças do outono passado.
Quero dividir com a minha sombra, o peso de um fardo que eu ganhei de presente. Ele era um garoto bonito, segurando na mão de uma garota bonita. Sim, eu acho que o tempo devorou o meu rosto. E mastigou minhas víceras com aquele ódio pegajoso que escorria dos seus lábios venenosos. Deixou-me no chão, a ver o velho saltitar de palavras de ensejo. Tão desprovida de argumentos e rédeas... Se eu adestrava meus demônios, hoje eles conseguem manter o pleno e total controle sobre o resto das coisas. Eu digo o resto, porque foi o que sobrou, depois de mim. Depois da morte. Esse tipo de desfalecer que nos faz morrer uma parte importante da alma. Deus, em suas nuvens, observando suas crianças no covil. Deve ser engraçado mandar queimar. Engraçado. Desastroso. Santificado.
Não posso correr. Um tipo de animal feroz surgiu no meio da clareira. O senhor de aparência bondosa amarrou minhas pernas para que eu nao fugisse. E naquele sonho de me deixar torturar, talvez, se eu estivesse realmente dentro do meu corpo, poderia dizer que me sentia lisonjeada. Esbocei um sorriso. Do fundo do meu peito, eu queria sorrir para ele e lhe tocar o rosto. Tão frio. Tão mal de coração. Escuro como o abismo da melancolia. Esperei e esperei. O meu amor segurando nas mãos de uma boneca de pano. Um doce sonho de criança jogado na lama. Fecheis os olhos.
Tentando esquecer a dor. Tentando alçar um voo a um lugar seguro. Pensando que talvez eu estivesse em minha cama, com meus livros e o meu melhor amigo. Tudo nos seus devidos lugares. Todos os meus sentimentos sagrados em seus respectivos lugares de origem.