terça-feira, 31 de julho de 2012

Nevoeiro


Eu tenho um gato chorão. Agora ele está deitado no meu pé, querendo um pouco de carinho. Ontem ele me mordeu. Estava nevando nos meus pensamentos e eu sentia um frio danado me engolir inteira. Posso dizer que hoje eu senti menos falta de você do que ontem. E ri quando toquei no seu nome.
O gato pensa em dormir, eu vejo suas pálpebras felinas caindo por sobre os olhos azuis. Eu deveria pedir um pouco de sono dele e dormir também. Esquecer que posto minha vida num blog que ninguém lê. Sinceramente, eu não quero plateia. Nem fãs. Nem esse gato eu queria deitado no meu pé. Gostaria de dormir um pouco, virando noites em sonhos reconfortantes. E voltar a conversar com a Verônica. Ela aparece tão pouco. Me sinto solitária.
Acho que me tornei mais forte. Um convite pra uma noite de bebedeira e uma resposta negativa. Devo me enxergar no final da festa, sóbria, com as mãos cruzadas na frente do corpo, olhando para o nada e pensando em fumar um pouco. Só pensando. Não. Eu estou bem sem cigarros. Estou bem sem amor e com um gato dormindo no meu pé.
Esse nevoeiro me obscureceu a ideia de que preciso de alguém para ter um motivo pra viver. Não preciso de um motivo. Nenhum motivo é bom o bastante. As pessoas estão sempre procurando motivos. Eu quero dormir e esquecer os motivos que me levaram onde estou. Não preciso de motivos para o que quer que seja. Cansei de procurar razões.
Queria poder sempre rir ao tocar o seu nome e esquecer que sinto sua falta. Queria uma pancada na cabeça pra esquecer as boas recordações ao seu lado. Queria poder sentir sono igual a essa droga de gato e dormir pra não pensar nos infinitos motivos.

Confissões bobas


Eu não sei bem como me explicar. Parei de beber. Tomo meus remédios. Cuido de um coelho gordo. Não tenho namorado. Às vezes estou bem feliz, depois estou no fundo do poço. Embora o jogo esteja contra mim, eu acho que não estou assim tão caída.
Quieta, ouvindo o choro da Christina Perri, penso que andei fazendo babaquices demais. Estou ouvindo a mesma música há uma hora e acho que estou agindo como uma idiota. Isso me faz pensar em morrer. Me faz imaginar como é estar morta. Eu até postei essa droga de música aqui no blog, enfim. É uma tarde ensolarada e estou aqui, pensando em morrer. Me pego muitas vezes desejando abrir um corte dos pulsos e esperar o sangue pingar.
Eu deveria fazer isso. A minha vontade é uma garotinha birrenta que não me obedece quando deveria. Chora Christina. O sol quente do lado de fora da janela, um daqueles dias em que eu me pergunto que porra estou fazendo na terra. Lítio não tem me causado nada além de enjoos, dores de cabeça e tonturas. O antipsicótico as vezes falha e eu não durmo com um medo desgraçado e desregrado de que algo me mate durante a noite. Ideia retórica. Voltei a falar com um amigo de longa data. Já o xinguei. Já nos desentendemos.
Eu perdi um grande amor por ser exatamente quem eu era. Distante de explicações cientificas sobre a bipolaridade, longe de confissões de culpa. Eu simplesmente perdi. Agora eu paro e penso que deve haver algo melhor nessa porra de vida. Eu tento explicar isso pra mim nesses parágrafos desconexos. Tento não parecer ridícula. Escrevo para não me cortar novamente.
E não encher a cara por causa de um filho da puta que não lembra que eu existo. Devo amar o coelho gordo porque ele é muito mais macho que este outro ser. Sem querer ofender, mas já xingando. Me sinto melhor. Viva. Meio morta. Mas respirando.

domingo, 29 de julho de 2012

Maçãs geladas


Me deixaram sozinha com uma senhora numa cadeira de balanço. Eu sei que somos iguais, mas tenho me perguntado quanto tempo vai demorar até que uma de nós duas morra. Acho que ela me deixará primeiro... temo que o tempo dela seja menor que o meu. Se ela morrer... Quem me olhará? E quem me oferecerá maçãs geladas? Quem vai olhar para mim e resmungar, esse gato chora demais?
Todos vão embora depois que eu desperto. E continuam se afastando enquanto o resto do tempo passa. Eu amoleci e enrijeci os músculos da face. Recebo ligações e mensagens de insulto e tudo que faço é tentar entender o que fiz de errado. Eu aceito tapas. Eu deveria estar zangada, mas não consigo me exasperar com isso.
Não com isso.
A minha raiva acorda em horas indevidas e fica comigo até as pessoas ficarem com medo das minhas atitudes. Ela é uma velha louca. Ela fala sozinha. Ela ri do vento. E soca paredes. Chuta paredes. Xinga a mãe. À noite, eles têm medo que ela faça algo.
A velha senhora ressona em sua posição confortável. Eu prendo o choro e tento acreditar que ela estará viva amanhã, para me contar seus sonhos. Nós nos faremos companhias, seremos a sobra. Nós veremos o fim do mundo.

Menino de engenho


Você me guardou na prateleira. Acho que foi excesso de uso, não sei explicar. Você bateu a porta e não voltou para o jantar. Agora eu deito sozinha e fico pensando em quando você me ajudava a dormir. É um passado que me ronda e rosna. Arisco, vivo, ameaçador. Sem você nessas noites monótonas, eu sou apenas uma escritora louca, sem horário pra acabar com seus escritos desorganizados.
Eu sei que você não irá voltar. E que as coisas não serão como estavam acostumadas a ser. Tenho uma entrevista de emprego e você tem uma nova garota. Parece que você foi bem rápido, é um garoto ávido. Nunca duvidei disso em você. Eu sempre soube que você sairia com uma desculpa esfarrapada e nunca mais voltaria. Eu soube que estendia a mão a um traidor e não ouviria desculpas depois.
Pois bem, nós sabemos que não somos mais nada. Mas tenho a impressão de que deixei meus óculos na sua mochila. Eu acho que roubei sua sorte quando puxei seu nariz. Suguei a sua energia com aquele beijo desmedido. Você deve entender que eu roubo coisas. Eu roubei sua paz, seu juízo, sua paciência. Estive roubando atenção, mas não funcionou como o esperado.
Porque estou sozinha e envergada. Tenho uma caixa de recordações cortantes e muitas coisas para chorar. Eu sou velha e você é um jovem menino de engenho. Boa sorte na sua caminhada. Voltarei aos meus lençóis e às minhas orações bobas.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Meu ataques de raiva


Me escorrem lágrimas salgadas pelo rosto. Nós lutamos até o ultimo segundo, até não termos mais fôlego. Passaram um óleo perfumado em nossas testas, num gesto que significava derrota. Depois riram na nossa cara, por que os chutes e os socos foram todos em vão.
Agora estamos jogados num canto da calçada, sem serventia e cansados de não ter uma resposta convincente para explicar o motivo de estarmos na sarjeta. Você chutou meu coração ladeira a baixo e pergunta o que há de errado comigo. Porra, eu quase me dopei de remédios, eu poderia ter morrido. Que diabos, minha mãe presta atenção demais em mim. Ela põe a culpa no computador, no meu pai, mas não entende que o culpado é um filho da puta que quer me matar.
E eu choro. Como uma criança, porque deixei você escapar, porque perdi a batalha. Eu choro porque há uma coisa muito errada com a forma com que encaro as coisas. Eu choro porque não há cura nem conserto.
Deixe-me.
Eu só queria me dopar pra esquecer o quanto dói.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Sobre dormir e enlouquecer


Parece uma manhã aconchegante. Devo dizer que dormir demais por causa do rivotril que eu tomei escondido, ontem à noite. Hoje eu me levantei como um zumbi, migrando para a cama da minha mãe, com o mesmo pijama suado.
Foda-se o coelho e se eu devo alimentá-lo. Não me importo mais. Quero dormir. Mesmo sabendo que vou ter pesadelos terríveis quando encostar a cabeça no travesseiro. Vou iniciar uma paralisia do sono e receber a visita de satã. Ele vai se esgueirar até o meu corpo e me estuprar, como tem feito das últimas vezes.
Então eu acordo, choro e me arrependo de ter sucumbido àquele sono irresistível. É o jeito que eles encontram de entrar no seu corpo. Num sonho bobo seu, eles vão surgir do nada e te deixar amedrontado. Vão te fazer implorar pelo despertar e quando você abrir os olhos, vai duvidar se está realmente acordado. E essa dúvida vai te acompanhar por muitos dias. E vai te roubar o sono durante a noite.
Daí vem aquele resto, que é quando pensam que você está ficando louco. Não se engane. Não fraqueje. Guarde seus medos. Contenha seus ataques de alegria e de raiva, pois tudo que você faz é milimetricamente observado.
A minha mãe me olha estranho quando estou feliz de mais. Isso me angustia. O que ela está pensando de mim? Porque me olha assim? E porque não me dá atenção? Eles não se aproximam muito. Te deixam livre para enlouquecer e lhe juro, morrem de medo quando você tem um ataque de raiva. Eles não sabem como agir com você. Eles acreditam que a porra do remédio faz efeito, mas não acontece nada demais.
Pode matar alguém, essa é a nossa natureza, meu caro amigo bipolar.
E ninguém acredita no que dizemos. Então foda-se.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Eu não estou louca.


Essa é uma daquelas noites em que eu ficava sem dormir, conversando atrocidades com a Verônica, me escondendo debaixo dos lençóis com medo dos demônios me matarem. Eu deveria estar na internet, mas os meus pais reclamavam demais, então eu ficava na cama, que nem uma morta viva, gelada e repetindo a frase de que estava morta. A minha mãe tocava na minha pele e via o quanto eu estava fria e começava a rezar ao pé da cama, pedido à Deus para que aquilo terminasse logo. Se ela tivesse demorado mais um pouco, eu teria me cortado no banheiro, por ordem da Verônica e ficaria na cama, chorando, com medo das coisas que se escondiam atrás dos móveis.
Hoje é um daqueles dias, parece que eu vou acordar pela madrugada e ir até o hospital psiquiátrico esperar oito horas pra ser atendida por um lindo médico atencioso. Não. Mas parece muito. É uma noite parecida, sabe?
Eu disse pra minha mãe que eu achava que eles compactuavam contra mim, e ela me abraçou dizendo que não era nada disso. Sinto que fraquejei, porque agora ela já sabe que eu desconfio. No fio da loucura e no pouco bom senso que me resta, eu acho que estou louca, mas algo me diz, no fundo, que estou fazendo objeções certas. Sim. Há um complô contra mim e querem a minha morte. Todas as pessoas, eu sinto isso, e acho que estou certa. Ele tentam me enganar com palavras bonitas, mas querem me ver num caixão.
A jac me disse pra contar isso à psiquiatra, mas e se ela estivesse misturada no complô? Eu estou sozinha. Eu me cortei no sábado e tinha alguma coisa do lado de fora querendo entrar. Eu vi, pode baixo do lençol, eles andando pela casa, como vultos. De um lado pro outro, esperando eu dormir. Porque eles esperam eu dormir? Querem roubar algo de mim, tirar minha alma fora... todos querem me fazer mal. É isso.
É isso.
Eu não estou louca.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Quem é o culpado?


Os meus pais discutem sobre quem é o culpado por eu ser assim. Eu finjo que não ouço, mas eles replicam e jogam a culpa de uma lado para o outro, até finalmente conseguirem me atingir.
Minha mãe chora, cansada de ouvir minhas lamentações. E eu sei que no fundo ela se arrepende de ter me colocado no mundo. Ela me vê na cama chorando, e diz, num tom zangado, quer chorar? Então chora. Eu não sirvo pra nada nessa porra dessa casa mesmo, pode chorar. Eu saio batendo a porta e fujo pra algum lugar isolado. Longe deles.
Eu não sei lidar com perdas e rejeições. Eu tento levar numa boa, mas me sinto tão impotente. Eu choro, mas queria me jogar do segundo andar. Queria cortar os pulsos bem fundo, rasgar minha jugular. Tenho pensado seriamente que a morte poderia amenizar a forma dolorosa com que tenho levado a vida. Me imagino morta, estirada no chão, e um alívio eminente surge com o pensamento. Se eu tomasse um gole de coragem, eu com certeza me mataria.
Mas penso na hipótese de fracassar. Lembro dos meus pais discutindo sobre o suposto culpado por eu ser desajustada, sinto que seria uma grande vergonha. Daí não me deixaria arrumar um emprego, eu nem poderia largar os remédios e voltar a encher a cara. Não. Eu seria uma suicida para sempre. Eles discutiriam pelo resto da vida, tentando descobrir o maldito culpado pela minha morte.
Ela quer desistir de mim. Mãe, você não precisa ir embora pra ficar distante. Nem gritar comigo pra descarregar sua maternidade frustrada. Essa frescura que você acha que eu tenho não vai se curar com seus gritos. Eu vou gritar também e nós vamos discutir feio. E eu não quero brigar com você.
Eu não quero que discutam por minha causa. Eu só queria que vocês chorassem ao meu lado e não tentassem minimizar a dor que eu sinto. Porque ela é intensa, forte e grandiosa. Antes as minhas lágrimas que o meu corpo ensanguentado no quarto.


terça-feira, 17 de julho de 2012

Confissões e calmantes


Pode me perdoar por tentar de novo?
Desculpe.
Ela é uma garota de treze anos e se chama raiva. Não suporta situações frustrantes e quando fica irada, chuta tudo que vê pela frente e joga coisas no chão. Daí os seus pais lhe obrigam a tomar um comprimido para ficar calma. E perguntam, Você nunca vai deixar de assim, desse jeito? Eles estão assustados e a situação não agrada.
Então ela se tranca no quarto, ignora ligações e a única coisa que consegue fazer é andar chorando de um lado para o outro. Tonta, com dor de cabeça, enjoada... Cansada de levar sua vida ladeira a baixo e de viver como se não houvesse amanhã. Chora de novo. E lembra-se da época em que as coisas pareciam mais fáceis de suportar. Lhe vem à cabeça uma vontade imensa de abrir um fenda nos pulsos e observar o sangue escorrer pelo azulejo.
Ouve algo, parece um choro, tenta se prender à ideia de que não deve se machucar. Pensa nos pais e no gigantesco complô que estão armando contra ela e sente falta de ar.
Tão jovem e com tanto problemas de ajustamento. Ela não serve pra trabalhar. Ela não é engraçada. Ela fica quieta demais quando estão falando. Ela chuta coisas e xinga a Deus. E chora. Depois a raiva chora. E espera o remédio fazer efeito. E os seus pais virem lhe assassinar.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Pelo resto da eternidade


Eu preciso me policiar. Eu sou o guarda e a prisioneira. Agora a pouco eu tive a sensação de que você viria me ver hoje. Houve um salientar de felicidade, seguida daquela dor aguda no lado onde o coração fica. Você não vem. E não virá nunca mais.
Era uma das coisas que eu deveria ter acostumado a enfrentar. Mas sabe, eu sou fraca também. Eu estou alquebrada e precisando de uma dose você. O meu doce vício de olhos castanhos... Me atenho à consciência de que será uma noite insossa e tento concentrar meus pensamentos numa atividade qualquer.
Pra esquecer que você não virá.
Há um rebuliço de sentimentos maus que afloram em mim quando eu perco as rédeas. Tudo que eu mais apreciava foi jogado na lama nesse exato momento. Eu sei que você está feliz sem mim, mas de todas as coisas, eu sempre soube que a sua ausência seria a causa da minha morte espiritual.
Sem você, as coisas são incolores. Nada é suportável e eu decaio com facilidade. Quieta em minha cama, eu fico esperando até perder os sentidos. E me pergunto se você está bem. Deveria me policiar melhor, mas você me toma pela mão e me trás de voltas aos nossos esconderijos antigos. Num sonho bobo de início de madrugada.
Eu volto para a cela e espero o dia amanhecer. E tento me acostumar com a sua ausência. Tento me acostumar com a ideia de que estou morta.
Só queria que você me perdoasse pelas babaquices e ataques de ódio. Eu estou doente e pagando por todos os erros que cometi com você.
Será assim pelo resto da eternidade.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Botões e pedrinhas de gelo


Eu tenho dois botões. O tempo os envelheceu. Inutilizou-os. Duas pedrinhas geladas, ele guarda uma no bolso e a outra esconde dentro do peito. Mas não faz diferença. Nem me importa se os dias passaram rápido demais. Aqui não há tempo. Nem velhice. Só o seu reflexo paralisado numa poça de lágrima.
Essas lembranças vão me ferir até o fim dos meus dias. A história acabou, mas a sua música fica tocando e tocando e tocando. Eu sei que as pessoas não querem se aproximar de mim, elas acham que isso é contagioso! Mas a minha tristeza é só minha e eu não posso dividi-la com mais ninguém.
Agora não importa se ficarei ainda mais solitária. Eu não ligo se os meus dias serão sombrios. Pouco me importa se estou piorando. Não vou melhorar pra ouvir mentiras. Promessas que serão quebradas. Desculpe. Foi involuntário destruir tudo que tínhamos. Desculpe. Foi por impulso.
Eu tenho dois botões inúteis. E não consigo jogá-lo no lixo. Eu tenho um coração desabitado e um par de sapatos velhos. Sem melhoras. Sem nada para dar importância. Sem talento.


terça-feira, 10 de julho de 2012

O mundo acabou.


Eu descobri que não posso pedir ajuda a quem não acredita em mim. Eu descobri que não posso pedir ajuda a quem não acredita em mim. Eu descobri que não posso pedir ajuda a quem não acredita em mim. Eu descobri que não posso pedir ajuda a quem não acredita em mim. Eu descobri que não posso pedir ajuda a quem não acredita em mim.
Diga a ele que eu morri.
Diga que eu cortei os pulsos.
Que eu me enforquei numa corda grossa.
Diga que tomei ácido.
Que me embebedei de querosene.
Fale que eu pulei de um prédio.
Conte que dei um tiro na testa.
Eu descobri que não posso pedir ajuda a quem não acredita em mim. Eu descobri que não posso pedir ajuda a quem não acredita em mim.
Eu descobri que as pessoas não leem as coisas até o final por que se acostumaram com os clichês. Eu sou um clichê. O que eu sinto é um clichê. E me resta morrer mesmo. Você não acredita em mim. O mundo acabou.

Garrafas vazias


Então, nós nos seguramos quando perdemos o chão. Aflitos e assustados no canto de um quarto desconhecido. Sem entender porque deveríamos ficar escondidos, nós nos enchemos de ilusões. Bebemos até a última gota. Embora eu deva dizer que fui forte por não ter me rebaixado tanto, no fundo, bem no fundo, eu sei que fui uma fraca. Sim, eu aceitei a proposta do diabo.
Depois, o mundo parou de rodar na minha cabeça. O meu pai perguntou se eu tomei algo na rua, daí eu sorri para ele e lhe apertei a bochecha, não. E acho que ele fingiu acreditar. Eles fingiram que eu estava sóbria. Eu fingi que estava satisfeita. Mas não... Se alguém pudesse olhar o grito dentro dos meus olhos. Eu estava em chamas. E chorando.
Mas eu tenho começado a acreditar que não há ninguém. Não há sobras. Só a minha vida vazia, de noites vazias, garrafas vazias. Eu fujo daquilo que me persegue e não tenho sucesso. Quando eu caio, na lama, ele está comigo. E sempre estará por perto. Para se certificar de que fez um bom serviço, uma cabeça de gado. Um corpo para a máquina de moer ossos. Sobrou a mim. E minhas vozes. Meu corpo cambaleante. A minha alma que chora.
Alguém que eu não conheço, mas que deve ter sido eu, em algum lugar do passado. Nos abraçamos e choramos uma noite monótona.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

EU NÃO QUERO TRABALHAR


Tem olhos demais em mim. E ouvidos. Eu tenho sentido as suas mãos no meu pescoço. Alguma coisa quer que eu morra. A noite, eu fico olhando os objetos do quarto e esperando os demônios para o açoite. Se foram. Depois que eu comecei a tomar aquele remédio maldito. Mas ficou a sensação de que estou adiando algo.
Me cortei. A médica vai saber, a minha mãe não pode. Você mentiu. Vamos juntos, segure em minha mão. Eu já me acostumei com o inferno, mas não consigo me livrar disso. Eu sei. Eu sei. Mas não acredito.
E alguém, quem crê?
Vozes no vazio. Risos. Choro. Sou eu. Ou não? Quem eu posso ser?
As pessoas tem medo. Porque as pessoas têm medo? Elas não querem acreditar. Deus se entristece com tanta ignorância, porque Deus brinca assim comigo? Ele é uma criança muito má. Ele brinca com a minha vida.
Eu sou um mero passatempo. Um guarda chuva. Eu sirvo para colocar os pés. As pessoas acham que essas orações servem pra alguma coisa. Eu não sei pedir. E não sei rezar. Deus tem sido uma criança cruel comigo. Deus. Por quê?
As minhas babaquices de final de tarde. O meu choro. Me ensinaram a não reclamar, mas eu sou teimosa. Eu não aceito regras. E dogmas. E gente escrota. Conversaremos no seu consultório quando eu terminar de escrever como me sinto. Você com a sua cara de idiota, anotando meus sintomas numa folha branca. Parece que me pegaram. Eles me pegaram. Não posso mais beber.
Eu preciso largar o tratamento. É. Eu preciso, você mentiu, lembra? Porque diabos isso acontece comigo? Remédios não fazem efeito. Não presta. EU NÃO QUERO TRABALHAR! Estamos bem elaborados. Jesus sorriu.
Cruel.
As crianças cruéis querem dinheiro.
Vamos para a forca! Segure em minha mão.


Ansiedade ou morte

Agora, um ruído. Depois da nota. Ela fechou os olhos e pulou. De baixo pra cima, pensando nos cacos de vidro. Eu a deixei por fora, e tranquei a porta. Comia uma fatia de medo, açucarado com geleia azeda. Ontem você disse que era tarde para ligações apaixonadas. Desculpe.
Tenho perdido a linha. Agora que tudo tem parecido incolor. Eu deito na cama e penso em tomar muitos goles de você. Ouvindo a nossa canção de adeus e vendo fotos de pessoas mortas. É sempre o mesmo pensamento repetido. Eu me seguro, abraço o corpo e tento não alcançar a segunda gaveta. É difícil ter um nome sujo. É difícil não sair do escuro. É difícil escrever sentimentos.
Ele brinca de adivinhar os números. Pulando de casa em casa como se fosse uma criança birrenta. Depois ele acha a garota certa e diz a ela que eu infernizei sua vida. Não respeita uma bêbada quase regenerada. Eu sei... eu sei que ele fala mal de mim pelas costas. O cara da terapia não acredita em mim. E a minha mãe também. E acho que ninguém acredita. É um disfarce para um gigantesco complô operante.
Querem me ver morta. Eu com o nome sujo e os braços amarrados. É um gigantesco amontoado de ódio. Pra não fazer sentido... eu pingo minhas lágrimas sobre as folhas de papel amassado e tento ler as palavras com a sua letra. Ansiedade. Não, porra. Ali está escrito morte. Em letras grandes. E depois eu ouço uma gargalhada. Os olhos acesos de alguém que eu amava, longe de mim. Brilhando no escuro. Essas coisas brilham. Esses sentimentos doem. Querem me ver morta.
Anotando pistas para a solução do crime. Sem entender as equações. Sem completar os raciocínios. Eu preciso comprar a ração do coelho. E fazer sentido. E mudar de nome. E não sair da cama. Longe, essas coisas brilham. Ela pulou e trancou a porta. Do lado de dentro. Essas coisas no escuro. Esses sentimentos me engolem. Ansiedade. Não... alguém errou o último algarismo.
Você errou.




domingo, 8 de julho de 2012

Sem você


Lavei o rosto e tirei os sorrisos fora. Me despi da máscara que me fizeram usar desde que eu acordei. Tanta gente pedindo a Deus um pouco de paz interior... Eu acho que não consigo mais pedir alguma coisa. O que sai dos meus lábios é uma oração sem nexo. Um balbuciar rústico, que nem eu mesma entendo. Eu paro e tento voltar ao passado, pra não errar de novo. Mas não há retorno. Continuo quieta, com as palavras erradas na ponta da língua.
Você me trouxe uma rosa desbotada. Assolou a minha vida. Você foi a minha peste negra. Amor... tão delicado num caixão ao lado das flores... Ninguém acredita que você está morto. Nem eu. Daí eu fico quieta de novo, no meio daquela gente vestida de preto, e tento olhar nos seus olhos fechados. E mirar um olhar de que sei a verdade. Não gosto de como você descansa. Eu temo que você me deixe de verdade.
Levante-se.
Um rugido e uma dor no fundo do peito. Tirando a maquiagem enquanto choro na frente do espelho. Me perguntando onde eu deixei aqueles sorrisos descartáveis e aquela felicidade insana. Deixaram-me sozinha. Com os pratos sujos. O coração pulsando sobre a cama, ensanguentado. Ainda é noite. E não amanhece. E o seu velório é uma festa que eu não participo. Porque a sua ausência é o meu decreto de morte. É o meu desfalecer. Eu caio sem você por perto.
Sem você. Eu volto ao fundo do poço. E começo a cavar sem pensar nas consequências. Não me deixe tomar os remédios!

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Eu e o tempo

Hoje está tudo muito bem. Eu passei o dia na cama, lendo, jogando, assistindo TV. Tentei dormir, mas espíritos inquietos não dormem durante a tarde. Fiquei jogada sobre a cama, e estava tudo tão calmo. Fez um tempo estranho, muito vento, friagem, não parecia a minha cidade quente. Foi tudo ao contrário hoje. Eu, o tempo.
Acho que isso é um avanço. É engraçado pensar que no meio de tanta balbúrdia possa haver calmaria. E tempos estranhos, com ventos raivosos e destemidos. O meu humor não faz o mínimo de sentido. E acho que nada nessa vida faz algum sentido. A minha tristeza saiu de mim essa noite, depois dos remédios, escapou do meu peito, subiu, tão alto, até contaminar o céu. Por isso tanta chuva, o vento descontrolado. E eu na cama, lendo, abraçada a uma paz refulgente. Deus disse que eu poderia descansar de mim, por algum tempo. Devo aceitar as minhas condições de vida e tentar viver o melhor possível.
Nada é tão difícil quanto isso. Mas eu preciso transformar a paz num estado de espírito costumeiro. Como? Se as vezes me vem a loucura de correr atrás do meu cachorro até não ter mais fôlego? Não sei. Deve haver um jeito de driblar a tristeza que abate minha alma frágil. Um jeito de coexistir comigo, com minhas instabilidades. Deve haver um jeito de viver dentro do meu universo.
Agora eu só quero aproveitar a minha paz. Antes que meu dia estranho termine.



terça-feira, 3 de julho de 2012

O que a distância não venceu


Me ocorre um pensamento de que não estive fazendo a coisa certa. Por algumas horas longas, eu fiquei olhando o celular com a tela escurecida. Dentro da minha cabeça eu via a luz se acender o seu nome surgir, como um anjo resplandecente numa noite triste de domingo. Mas não era o pensamento certo. Para a garota certa. Eu imagino o final do seu dia e em como você é ocupado. Com tantas cobranças e puxões de orelha, você aprendeu a ser um bom rapaz, e tudo ficou como estava. Seu coração mortificado e duro. Machuquei o lábio, abri uma fenda na coxa e coloquei seu nome nela. Para iluminar meu dia. E quem sabe fosse esse o pensamento certo. Depois de divagar no meu nirvana de garrafas de vodka e maços de cigarro, eu vejo você, como um redentor, de braços abertos, esperando por um sinal meu. Venha ver como eu progredi. E parei de falar atrocidades. E fazer burradas. E pensar que a minha morte estava perto. Você veio e roubou aquela minha ideia de ficar a noite inteira conversando com a parede. Disse que pensava em mim e me fez desistir de ir fundo com a faca. Você foi o meu alicerce quando o teto da minha vida desabou sobre a minha cabeça. Agora eu acho que estive me afastando da realidade constantemente. Sempre que eu pensava em estar junto de você, nos nossos passeios de final de semana, com beijos, sexo e um amor tão grandioso... a realidade é um quarto gelado. Um celular com a tela escura. E uma noite silenciosa com uma pílula de antipsicótico. Sem anjo. Sem ninguém importante. Porque não vale a pena gastar tempo tentando vencer a distância. Ela sempre venceu aquilo que você chamava de amor.




Não fala comigo, porra!


Eu tenho medo de não dormir. E de cair naquele universo de mirabolantes manobras, onde a minha sanidade se esquivava dos meus beijos. Você não pode ir embora agora? Eu só queria entender sobre catabolismo e como as enzimas funcionam. Não... eu não queria que você falasse comigo.
Sabe, eu estou a par de muitas coisas. Eu sei que você tem perguntado sobre mim àquelas pessoas e até mesmo tem perguntado de mim. Mas a resposta que te dão é sempre a mesma mentira. A mentira que eu conto pra mim sempre que eu acordo. A mentira de que estou bem e feliz. Todo mundo repete depois de um sorriso bobo. Tudo ótimo. Como nunca. Ela melhorou.
Mas até aquela criaturinha que eu comprei, e que não sabe falar, compreende meu estado de profunda desesperança. O coelho me olha nos olhos e diz que sabe que eu sou uma mentirosa. Daí ele se agasalha nos meus braços e me ouve chorar antes de ir dormir. Embora as pessoas daqui não entendam nada sobre amor, foi aí que eu descobri que pode haver um pouco de nobreza em amar alguma coisa além de você.
Eu ouço sempre que existe mais de um homem no mundo. Eu vou aos médicos, tiro sangue, radiografias, tomo pílulas, faço orações, e vejo que as pessoas não acreditam no que eu digo. Então eu paro, no meio do caos, e me pergunto se eu realmente não acredito também. Saio do corpo, e me olho, não sei para onde estou correndo, mas é um caminho escuro. Tento fugir com uma boa recordação, embora seja difícil, as minhas veias doem. Você me fez sangrar. E me pergunta porque eu parei de falar com os amigos. Queria lhe dizer que você não é a porra do meu amigo. E eu quero que você se foda com a sua nova namorada.
É claro, é bem claro? O que eu digo, é claro?
Eu tenho medo de não conseguir dormir a noite. E preencho minhas horas com coisas que eu nunca vou terminar. Eu começo canções que não sei até o final, escrevo histórias obscenas de pessoas que existem dentro de mim, e ao fim do dia, eu tento não chorar por medo de perder as pessoas que tentam cuidar de mim.
Não sei mais o que pensar. O meu coração ainda dói e acho que isso é tudo que eu posso falar. Anjo da guarda.


segunda-feira, 2 de julho de 2012

Odeio


Eu odeio o jeito com que você fala comigo. E a maneira como se expressa depois de me ouvir dizer algo. Porque você não acredita e nem se importa se as suas palavras vão me fazer morrer. Seu porco. Eu odeio você. Me sinto tão exausta de correr nessa saleta, eu sou enorme mas o espaço é pequeno demais para as minhas tristezas. A culpa é sua por eu ter cortado o pulso. Você me disse que não limparia a sujeira, e saiu dando de ombros. Pobre garota mimada. Não entende que a vida é muito mais do que um encontro... se ele soubesse que eu não durmo e que eu anseio pelo sopro da vida. Ele choraria por mim. E pediria perdão. E me soltaria desse laço apertado. Eu estaria livre do casulo e saberia voar. Mas os velhos canastrões querem sangue novo. E cordeiros ingênuos. E lágrimas depois dos gritos de ordem e obediência. Eles querem meu sangue. Minha carne rasgada em muitos pequenos pedaços.



domingo, 1 de julho de 2012

Meu reflexo


Você tá sempre querendo coisas que não pode ter. E ser alguém que não é. E ter pessoas que não querem você. Uma música e eu estou em outra dimensão, no meu paraíso de sonhos e amores incondicionais. Misturados com a fumaça dos cigarros e os nossos sorrisos de contentamento. Depois do ápice. Dois loucos felizes, presos em suas cadeias de pensamentos abstratos. Mortos. Com a poeira da pele prestes a se romper. Você me faz querer morrer. E me toma como se eu fosse um copo de cerveja. Você não pode querer o meu reflexo, porque há duas pessoas em mim, e eu simplesmente não posso viver com isso. Conciliar-me. entrar num acordo. Eu morro sempre e você não percebe. Eu estou caindo e você não se dá conta. Há tanta coisa pra ser jogada fora, mas eu gosto de me abraçar a elas para não me sentir solitária. Todos os brinquedos novos se quebraram. Todas as despedidas foram feitas e toda carne foi consumida. Agora somos só nós dois. Eu e o meu reflexo distorcido.