Não sou
predestinada por um transtorno, mesmo que ele se embole ao meu eu, interno e intransponível.
Quero voar e quero beijar os seus lábios com a mesma paixão da primeira vez. Eu
quero cortar os braços até enxergar os ossos. Mas fico aqui, paralisada,
tentando decifrar o meu reflexo e a garota atrás do espelho. Minha alma
encolhe, pequena, dentro deste corpo grande. Algo como um segundo eu, tomando
conta, mas ele é bruto e não sabe entender sutilizas. Eu, pequena, observo, até
retornar, e conseguir habitar todas as partes do meu corpo. O médico deverá
achar que eu sou louca, não sei. Borderlines tem isso? Eu deito na cama e fecho
os olhos, alguma musica tocando, elas se misturam, mas são agradáveis.
Desaparecem. Depois voltam, eu de olhos abertos, alguém cochichando aos meus
ouvidos. Deveria sentir medo, mas eu só queria poder ficar quieta.
Sair de casa
reforça a ideia de estou sendo difamada. Na faculdade, aquela corja de putas e
playboys falam mal de mim. Quando eu chegava na sala, todos me olhavam e não
gostavam de mim. Eu podia sentir. Aquilo me deixava tensa. Aquele ar, vejam a garota do cabelo vermelho, o poema
idiota dela e o jeito idiota que ela tem. Porra, eu queria entrar nas
conversas e mostrar que também tenho senso de humor. Eu queria um sorriso pra
mim. Queria que sentissem minha falta. Queria que ligassem e perguntassem:
porque você desistiu de publicidade?
Foi como
psicologia. Além daquela dor horrível por ter perdido o amor da minha vida,
havia a insatisfação com aquelas matérias idiotas. A sensação de não pertencer
aquele grupo de mulheres bem entendidas e detentoras de bons conselhos. Eu era
um câncer. E sempre que eu entrava naquela sala, eu sentia, em cada parte do
corpo, uma dor que me fazia querer morrer. Doía o corpo, o corpo da alma. Doía
saber que eu estava sem o meu namorado anjo da guarda. Era doloroso perceber a
solidão e o abismo que havia entre eu e aquela gente feliz.
O álcool me
levou ao inferno muitas vezes. Mas devo confessar que alcei voos incríveis. E
vivi momentos inteiramente felizes. Mas eram tão raros... quase sempre eu estava
chorando ao telefone, ou me cortando no banheiro, com o chuveiro ligado.
Pensando que ele estava amando outra garota e que eu amava não somente a ele,
mas aquele meu outro melhor amigo, que estava pouco se fodendo para mim. Era
dor. Não era vida. Era dor.
Ficar doente
gravemente era uma boa saída. Sair da vida, fechar as cortinas, descansar dos
males que haviam levado a alegria de mim. Fiquei doente, mas me obrigaram a
tomar remédios. Eu deveria ter fumado mais, pra ter agravado o caso. Vacilei.
Sobrevivi. E aquele vazio que o meu amor deixou quando partiu, aquela imensidão
de tristeza e trevas. Quem poderia salvar-me? Bom, eu tinha um teclado. E
ficava horas e horas tocando a mesma música triste, porque era como eu me
sentia. Absolutamente triste e morta. Depressão
profunda, disseram. Remédios. Sono induzido. Vazio crônico. Me deram uma
coelha. Mas não era só uma coelha, era minha vida, daquele dia em diante. E se
eu consegui melhorar, foi por causa daquela pequena criatura. Eu a abraçava
antes de dormir (a hora mais difícil do dia) e chorava baixinho. Ela não
respondia, mas olhava para mim com aqueles olhos arregalados. Presentes. Eu
sabia que a teria. Sabia que ela não me abandonaria ou me esqueceria, por pior
que eu fosse com todos.
E depois desses
anos, eu ainda estou por aqui. Aos pedaços, como sempre estive, só que mais disposta.
Consigo sorrir. Consigo dormir. Consigo cultivar momentos bons. Mas o vazio e a
tristeza me rondam sempre. Junto com os cortes. Os remédios. A vida a qual estou
presa. É bem isso. E aliás, roubaram a coelha.