quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Solidão


Me ocupo com alguma tarefa corriqueira. Algo que me lembre como é ser uma pessoa normal. Comum. E tento passar o máximo de tempo presa a essa ideia, sem querer me afastar dela para encarar o mundo real. Me vejo às voltas com um desejo massivo de não enfrentar a minha loucura. O desejo de me esquivar da minha doença.
Estou calma, nesta manhã doce de quarta feira. Mas não posso negar a decepção e a tristeza que amolecem meu coração por inteiro. Ontem eu pude me dar conta de quanto tenho medo da solidão. E de como eu consegui estragar as coisas. Mas não, esse post não é sobre uma possível auto retaliação, esse post é sobre a descoberta. A maldita e certeira descoberta.
Sozinha eu fico sem chão. Eu não sei caminhar, pensar. Eu não sei lidar comigo. Eu me junto a um amontoado de sentimentos que eu não sei pra onde vão. No meio do caos e do medo, eu vou lá, pego a faca e abro um corte na coxa. Não é por outro motivo a não ser aliviar a dor de estar perdida. Perdida, sozinha e anulada. Depois me vem um sentimento de inferioridade, uma raiva por ter decaído depois de meses completamente isenta de machucados. Descubro que enfraqueci. E que não tenho tanta força quanto imaginei. Estou esperando a chuva passar, sozinha, debaixo de um telhado qualquer.
Não tem príncipe com guarda chuva. Não tem pai e mãe com carona de carro. Só eu, meus cortes e a minha solidão.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Eu, morta


Pedro me deixava impaciente. Quando dizia que me amava, quando tentava cuidar de mim. Aquilo mexia comigo, deixava minha cabeça bagunçada, era uma desordem de sentimentos que eu não podia conter. Era algo forte demais para que eu pudesse segurar com as mãos. Era um sentimento sólido, mas fugaz e volátil ao mesmo tempo. Eu o amava. Mas depois já não era amor, era desprezo. Era uma desorganização absurda e isso me deixava nervosa.
Voltei para casa. Me prendi aos meus quadros e aos meus livros. Meu pai chegou cedo. Observei da escada ele se sentar na poltrona e ligar a TV. Em cima da mesinha de centro, uma garrafa de uísque num balde de gelo. Ele afrouxou a gravata e tirou os sapatos, ligou no noticiário, aumentou o volume. Eu quieta, olhando sua nuca. Roendo uma unha imaginária, pensando em roubar um pouco da sua bebida.
Queria esquecer a bagunça na cabeça, o ódio pelo meu pai e o meu sentimento desgovernado por Pedro. Eu faltara o curso, não sabia bem porque, mas não queria ouvir aquele Bon après-midi, les jeunes, e o professor zanzando pela sala em busca de atenção com seu francês carregado de um sotaque regionalista. Eu não queria precisar passar pelo beco também, porque minhas esperanças estavam minguadas com relação à possibilidade de pertencer àquele lugar. Eu não era de lugar algum. Eu não pertenceria aquilo.
Pintei metade de um quadro, rezando para aquela vontade de encher a cara simplesmente me deixasse quieta. Doía ficar sóbria. Doía odiar alguém. Doía viver. Pensei no suicídio. Pensei em tentar outra vez. Continuei pintando. Eu, morta. Meu pai pagaria o velório, sem lágrimas, eu teria uma boa lápide e haveria minha foto nela, sorrindo, um daqueles sorrisos bobos de porta retrato. Pedro jogaria flores sobre o caixão, Angelina chorando. Eu quieta, olhando do alto, ao lado de Werther, nós dois com as mãos unidas olhando a terra escura cair sobre a madeira.
Parei de pintar.
Sentei sobre a cama, ofegante. Tentei buscar fôlego. Vou roubar sua bebida, vou roubar os seus cigarros. Onze da noite, tarde demais para fugir pela janela. Tarde para visitar Angelina, tarde para almoçar na casa de Pedro. Corri pelo quarto, procurando nos meus esconderijos alguma garrafa de bebida ou uma caixa de cigarro. Sabia que não acharia bebida. Eu sabia que não acharia, mas e se surgisse ali, por mágica? Me concentrei em procurar, mas não achei nada. Só uma caixinha de cigarro dentro de um pote decorativo.
Passei a noite fumando. Pensando. Fumando. Chorando.
A janela aberta e a fumaça empestando o quarto. Eu sentada no chão, com roupas de dormir, sem conseguir pregar o olho, olhando o céu, as estrelas no breu, os galhos das árvores do quintal. E se eu ligasse para Pedro e lhe pedisse bebida? E se dissesse a ele que estava morrendo por dentro e que pensava em suicídio oura vez. Não Helena, não faça isso. Não acorde ninguém. Aquela dor no peito, aquele tédio, aquela maldição de vida! Terminei o sétimo cigarro e peguei um estilete na gaveta do criado mudo.
Ergui um lado do shorts e abri um enorme fenda na coxa esquerda. O sangue sujou o lençol da cama. Puxei-o e o joguei sobre o chão. Fiquei lá, tentando manter a calma e não quebrar o quarto  inteiro. Estava com raiva de mim, raiva do mundo, raiva do meu pai. Eu poderia sair do quarto e sorrateiramente cortar a garganta dele. Com o som do noticiário, ele não escutaria meus passos. Pensa, pensa. Guardei o estilete na gaveta outra vez e fiquei olhando o sangue estancar. Fora um corte largo e um pouco fundo. Merecia uns pontos. Esperei sangrar mais até rasgar um pedaço do lençol e fazer um curativo improvisado.
O sangue não parou de jorrar, pelo menos até eu fumar o resto dos cigarros na caixa. Pensando, sentindo a dor, o pano enrolado na coxa totalmente ensopado. Nem liguei, a raiva passara, agora só havia restado a vontade de morrer. De cortar a garganta e morrer. Matar o meu pai, depois me matar.
Alguém bateu na porta, me virei, fiquei esperando que entrasse. Não veio ninguém. Tirei o pano da coxa e caminhei até a porta, abri-a, o corredor vazio. Me dispus a ir até a escada novamente, meu pai dormia, a cabeça pendendo para o lado esquerdo, a garrafa de uísque pela metade. Tudo como antes. Voltei ao quarto, o sangue escorrendo até a panturrilha, passei a mão, observei o sangue entre os dedos, corri para a pia e lavei a mão, tentei conter o sangue com papel higiênico. Não funcionou muito, acabei deitada na cama, com o pedaço do lençol amarrado na coxa.
Dormi.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Pílulas coloridas


Eu queria uma daquelas pílulas adocicadas e coloridas. Aquelas que a Alice guarda no país das maravilhas. Pílulas de esquecimento eterno. De alegria eterna. Estou longe de casa, embora rediga esta lamentação sentada na cama do meu quarto. A brisa da madrugada me tirou o sono e fez o rivotril parecer um remédio bobo. Ninguém pediu esmolas hoje, apenas a mesma ladainha de que eu vou passar por esta dor e de que vou vencer no fim das contas. Me desanima pensar que vou superar tudo que houve, porque criar expectativas é o primeiro passo para uma queda vergonhosa. E eu não vou superar nada.
Estou flutuando acima da minha cabeça. Sou uma porta. Um quadro. Sou um pedaço de madeira esculpido em formato de coração. Tenho sentido dores na alma. Dores que não me deixam descansar a noite e que permeiam meus sonhos. Hoje eu vi o quanto foi deixado para trás. Uma vida. Uma história. Pessoas que eu não sabia amar tanto. Ninguém lembra, mas aquelas ruas eram minhas entranhas. Aquele lugar era meu santuário. Guardo na cabeça a sua voz me guiando pelos caminhos. Sua lembrança sorrindo para mim e me comprando bolo de chocolate.
Estou destruída. Mas arrisco sorrisos. Arrisco brincadeiras e mensagens de motivação. Mas por dentro... se alguém pudesse ver por dentro. Está tudo manchado de sangue. Foi uma carnificina. Eu não sabia que psicologia me causaria tanta dor. Não sabia que largar a faculdade e um namorado fosse o motivo motriz de uma morte espiritual. Me sinto fracassada. Me sinto péssima. Diante de uma coisa que não pode ser consertada. Diante de uma lápide. A minha lápide. Prendo o choro, porque há pessoas demais a minha volta. Prendo o ar nos pulmões e tento não gritar. Estou presa em lembranças. Presa num história sem personagens.
Meu coração dói. Meus olhos ardem. Estou indo para longe. Não quero mais sentir essa dor. Alivio a angustia enquanto choro palavras. Alivio a tristeza enquanto penso que foi melhor assim. Sem bebidas e sem amor/ódio. Só uma Jéssica vazia, solitária e que tenta dar bons conselhos. Nada demais. Apenas eu, com minhas pílulas coloridas e imaginárias.

A dor do real


Eles ligam para me pedir que vá também. Me despeço de um amigo e apressadamente tomo a rua. A gente se fala mais tarde.
- Mãe, preciso tomar os remédios.
- Estão na bolsa – minha mãe me olha por cima do vidro da janela. – Entra no carro Eu entro.
E fico lá, respondendo sms, ouvindo música eletrônica e desejando nunca chegar na casa da minha avó. Eu só queria que o meu pai dirigisse e me levasse pra bem longe. Só guiasse o carro, sem fazer perguntas que me obriguem a sair da minha clausura. Entro na parte superficial da minha pele, e descubro que habito uma constelação de estrelas apagadas.
Morta, por baixo da roupa e dentro dos olhos.
Chegando lá, eu sorrio e tento aparentar felicidade. Escondida, eu engulo as cinco pílulas que me fazem ser menos doida. Um desespero bobo enche meu peito depois que tomo água. Minhas mãos tremem e meu coração acelera. Diriam que eu preciso de um namorado e até a minha melhor amiga confessaria que isso é o que me falta. Mas eu discordo. E chego a pensar que o meu grande problema foi ter namorado algum dia. Me atenho à uma vida de solidão, textos tristes e músicas fúnebres.
Minha mãe fala, liga pra ele, diz que você o ama. Mas ela não entende que não se pode quebrar o fio da meada e sucumbir ao ato de implorar. Não quero implorar e não quero voltar àquela história antiga. Não consigo ser a mesma garota, não consigo pensar em repetir páginas e atitudes. Não quero ouvir a voz dele, porque morro. Estou morta ao ouvi-la. Morta de medo de que tudo aquilo volte. Aquelas noites. Aquela época. Dentro do carro, sozinha em minha ilha de pensamentos, nada pode me fazer voltar. Andar para trás.
Não.
Estou de volta à uma atmosfera suicida. Mas não estou completamente triste. Eu ensaio uma tristeza. Eu sei as respostas. E sei que não há nada de novo. O cara da terapia não acredita em mim. O lance dele é me fazer desacreditar que estou doente. Você não é manipuladora. Nem depressiva. Você precisa viver a dor do real. Eu grito ao garçom e peço mais uma dose de tequila. No meu pensamento. Na minha historinha sem final. A dor me tirou as amarras. Eu brinquei com lúcifer e terminei com um corte na mão.
A noite eu tomo uma pílula para ter sonhos bons. Ouvindo uma música triste e pensando que estou acostumada com uma vida pela metade.
Tenho medo do amor verdadeiro.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

A ponte


Paro e penso no que escrever. Tenho que dar a volta num gigantesco vazio e tentar enxergar depois da neblina. Ouço o eco de uma frase sem sentido, sento num lugar qualquer e me prostro a pensar. Vagamente, eu me distancio do meu corpo e começo a escapar de mim, olhando as imagens embaçadas das nuvens. Não demora muito e caio de volta à terra.  Tenho a sensação de que estou morta.
Todos estão à espera. Mas eu não chego. Dobro esquinas, desço ladeiras, passo por encruzilhadas. Não posso chegar. Não estou pronta. Decidi melhorar, mas é cedo para reencontros. Tenho uma rosa murcha atada às mãos. Uma historia sobre alguém que morreu de tristeza e uma flecha suja de sangue.
Estamos indo pelo mesmo caminho. Mas não nos falamos. E esse silêncio me puxa pra baixo, eu me afogo. Perco os sentidos, continuo andando. Agora penso na neblina, no vazio. Me sinto cansada. A obstinação me abandona depois da terceira curva. À sós com você, eu me desconheço. Perco o rumo, falo bobagens, eu esqueço que você não se importa.
Deixei um cara legal apodrecer no banco de uma praça. Deixei um gato morto numa rua perto daqui. Gesticulei meu pranto, abrandei as cotoveladas de uma garota que divide o corpo comigo. Prendendo o ar nos pulmões. Tomando os remédios na hora certa. Pensando que preciso sair desse lugar escuro em que eu me meti. Só não quero a vida de antes. Eu não quero a bagunça de antes. Tenho medo de dormir. Não posso dormir. Não preciso dormir. Não dormirei.
Continuo quieta, olhando a neblina e o vazio. Pensando num jeito de atravessar a ponte da sanidade e me encontrar comigo do outro lado. No lado bom da vida.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Show


Hoje vai ter show. Eu quero sair pra fumar um pouco e jogar conversa fora numa praça qualquer. Com roupas de frio e aquela certeza no olhar. Certa de que estou fazendo um bom trabalho. Certa de que não preciso voltar atrás.
A consequência vem em forma de agressão física. Não adianta você chorar, gritar, ou ameaçar. Faz parte do espetáculo, um pouco de dor e sangue. Os espectadores gostam da ousadia de quem faz o trabalho sujo, não há nada mais especifico.
Acendo o terceiro cigarro, olhando o movimenta nas ruas. Acho que deveria estar provendo vida, mas me olho amarrada a uma pedra gigante que começa a afundar. Minha sanidade solta baforadas na minha cara e cospe sua bebida no meu casaco. Tão louca da vida, acho que alguém precisa de uma ambulância.
Um empurrão. A plateia vibra. Depois dois gritos e uma garota com espasmos musculares. A vizinhança espera o desenlace da história, a menina sozinha no quintal escuro, tremendo e chorando lágrimas de loucura. Ninguém entende as mordidas nos pulsos, eles só sabem que ela mereceu uma tapa. Ninguém entende os arranhões e os olhos no vazio.
Onde não se vê nada. Só a sombra de uma felicidade que existiu. Algum dia. Esse doce dia ficou no passado. Está destruído, torto. Passou do tempo. Combino um passeio com um desconhecido e ouso dizer que sou uma garota de sorte. Mas sei onde estou indo. Sei que estou perto de cair. Sei que não será um bom futuro.
Eu sei que mortos não falam. E não ouvem os aplausos ao fim do show.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Quarto escuro


Estamos sozinhos num quarto escuro. É o terceiro copo e faz muito frio. Ninguém trouxe o jantar, mas avisaram que estariam por perto caso fosse muito necessário. Agora, eu olho meu reflexo no fundo do copo e penso que é sempre necessário que eles estejam perto de mim.
O piso estremece, a sua presença chegou mais cedo. Veio quebrando as coisas, derrubando a porta, grunhindo. Eu me esquivo num canto da minha mente e volto ao meu lugar seguro. Ouço o canto dos pássaros e observo o arco-íris na linha do horizonte. Tem uma inscrição nos seus olhos e eu gosto lê-la.
Um grito morno me puxa para baixo. Devo lembrar que estou amedrontada e que esqueci de tomar uma pílula enquanto ainda era dia. Você me analisa sentado em sua poltrona confortável e diz que eu estou a um passo de finalmente morrer. Suspiro, cansada – você não entende. Eu sou um fantasma e já morri milhares de vezes. Eu sempre estou morrendo quando você olha para mim. Eu estou morta quando penso e seguir em frente.
Ninguém para conversar antes da meia noite. Continua frio. O paraíso cantarolando uma canção idiota num lado do quarto. Eu vejo o diabo se esgueirar para longe, tomando sua vodka, me dando tempo para pensar. No dia seguinte eu me encontro com aquela bela senhora de olhos azuis. Ela vai me ouvir e eu tenho medo. No escuro. Medo de que perceba. E que aumente a dose das pílulas. Medo que me deixe jogada nessa prisão escura. 
A minha vida pulou da janela. Ouço o barulho de algo se quebrando do lado de fora. Aperto o rosto, escondo uma lágrima. O meu carrasco sempre me fará companhia.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Sobre mim


Não gosto de ruas movimentadas e de televisão. Sou uma jovem alcoólatra e me chamo Helena. Moro numa casa grande demais pro meu gosto, não tenho amizade com nenhuma das empregadas e costumava dormir com o antigo motorista. Pra ele não contar ao meu pai as coisas que eu fazia quando estava fora de casa. Só pro meu pai não encher o meu saco.
Eu odeio meu pai. E sinto em dizer algo sobre ele nisto aqui. Seria melhor pular esta parte e fingir que isso simplesmente não está acontecendo. Mas não posso evitar. Ele me inferniza e faz cada segundo da minha vida valer menos a pena. Nos odiamos, mas fingimos que está tudo bem durante o café da manhã.
Gosto de ler antes de dormir, fumo maconha pra relaxar e saio para me embebedar com Angelina e Pedro. Meus amigos-amantes. Acho que está tudo bem, tirando a minha tentativa de suicídio há duas semanas. Consigo voltar às coisas de costume e viver perigosamente o resto dos meus dias sem esperar grande coisa.
Porque não há nada por vir. Entendam. Eu só quero mais um gole de vodka ouvindo coming down. Remontando minha vida num daqueles romances do século XIX, onde o mocinho dá um tiro na testa no final. Trágico, típico. Nada tão assustador.
Sem culpas. Sem dor. Só o receio de ser expulsa da escola por mal comportamento. Um dia o Fernando me quebra de pancada. Isso seria peculiar vindo de um homem que vive controlando a raiva que sente. Os sentimentos que sente. Eu rasgo minha pele para que esses sentimentos fluam de verdade, por isso eu sei que estou acima do meu pai. Ele não tem a coragem que eu tenho. Ele não faria as coisas que eu fiz.
Porque ele é parecido com muitas pessoas. As mesmas pessoas que estamos acostumadas a lidar todos os dias. Engolindo sentimentos, situações, fatos. Ninguém coloca nada pra fora.  Ninguém ousa encher a cara pra desafogar a inquietação. Nem fuma porra nenhuma pra controlar a ansiedade. Poucos abrem fendas no corpo pra liberar o choro da alma.
Eu sou daquelas que coopera com a baderna. Eu sou aquela que vai presa. A sem coração. A bêbada irritada. A garota sem regras. Eu sou aquilo que querem que eu seja, dependendo da ocasião.
Muito prazer.


domingo, 5 de agosto de 2012

A música


Estamos parados no mesmo ponto de antes. Em todas as direções existe um carrasco faminto. Ele vive solitário em sua ilha de soluções baratas. E gosta de comer criancinhas birrentas que não obedecem aos pais.
Era uma noite inquieta, o vento uivava. Eu na cama, os olhos arregalados no teto, aquela sensação de que estou extremamente viva. Daí vem aquela canção desengonçada no ar. Perco o fôlego. Levanto da cama e procuro o som. Está pela casa, nas paredes, se esgueira até o quarto dos meus pais. Entro. Vestido longo, calor. A mulher acorda e pergunta o que estou fazendo. Mas que diabos, você não tá escutando a música? Não tá ouvindo?
Não tem música. Daí ela levanta da cama e acende todas as luzes da casa. Eu continuo andando e mordendo o lábio, procurando a música. A mulher começa a chorar. Fragmentos de medo e dúvida. Me olhando com aquele olhar, ela fez de novo. O meu pai continua dormindo. Um dia eu acordo de madrugada e os mato. A música parou.
Me ofereceram dois calmantes. Essas malditas pílulas que fodem o meu cérebro. O vento continuava cantando do lado de fora, agora acompanhado de ganidos e ranger de dentes. Volto para cama, olhos secos, pensamentos confusos e bagunçados, minha mãe me olhando furar o teto com os olhos.
Um pânico se instala quando ela some de vista. Eu sei, no fundo, ela vai me matar um dia desses. Me preparo para uma facada. Ela surge, passa um óleo cheiroso na minha testa, meu corpo estremece. Medo da morte. Medo dela. Medo de respirar. O cheiro do óleo me deixa em pânico. Figuras bruxuleantes no teto.
Estou viva.
Estou viva.
Estou presa à vida.
Durmo, viro um zumbi no dia seguinte.


sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Pequenas maldições


Parei com os remédios. Acho que não tenho nada, a não ser a mesma velha tristeza de antes. Ela continua amarrada a minha mão, presa junto a mim. Estamos fundidas e ficaremos juntas até o fim. Pra quê remédios? Eles não curam o vazio da minha alma. Eles não alcançam aquela parte verdadeira de mim, tão funda, enraizada, enrolada. Simplesmente, não posso viver desse jeito, nessa ilusão de que tantos remédios me fazem bem. Não fazem nada. Abrandam minha alegria e me deixam solitária com a minha costumeira melancolia.
Eu choro as despedidas não ditas. Os abraços não dados, as palavras engolidas. Choro a morte. Choro a vida. Eu choro até sem entender o porquê de tanto choro. Também não pergunto, acho que não devo dar mais trabalho, eu sou uma velha envergada, quero um colo macio pra descansar a cabeça. Quero olhar pra dentro e ver um mundo novo se transformando, quero achar um novo lugar para pousar as ideias, e viver cercadas de tantas, inúmeras, ideias vivas. Quero um amor. E destilar pequenas maldições ao Sr. Tempo por ter demorado a me dar o que era meu por direito. Sorrir pequeno, mas sorrir feliz.