sábado, 24 de novembro de 2012

Eu só queria fumar.



Um amontoado de roupas sujas. É engraçado que eu não devo nada a ninguém, mas me sinto vigiada. Às vezes eu simplesmente não consigo dormir – e é quando me pego num delírio. Estou presa em sublimações. Não dá pra descansar quando se tem uma mãe doente. Não, quando se tem uma família doente. Sabe, eu não tenho habilidade para chorar em funerais. Depois de tirar o barro dos sapatos, eu fico olhando o morto e me pergunto: quer trocar de lugar comigo? Mas não estou triste. Chorar não resolve as coisas. Cantar até a garganta sangrar é uma boa forma de desviar a tentação de cortar os pulsos. Ninguém se importa. Eu sei que ninguém no mundo dá a mínima pra isso. A felicidade seria fumar e ficar olhando o tempo. Não posso amar ninguém, então sei que o meu futuro será solitário. O meu irmão liga para os amigos e foda-se se tudo está uma merda. Ele vai chorar depois. Quando e se tudo for destruído. Eu queria sair de casa pra não ver o problema também – mas não posso. Que espécie de filha eu seria? Já dei dor de cabeça demais. Isso não é poético, mas eu nunca disse que seria. É meu. E dói. Meus pais brigando no quarto ao lado. Se a minha mãe morre, a vida perde o sentido de uma vez por todas. Não posso ficar sozinha. Não posso ficar sozinha. Socorro? Sem expectativa de vida.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Bem querer?



Ninguém para dizer adeus. Uma sombra atrás da porta. Tento escapar dos olhos que me perseguem. Estou bêbada de tristeza. Caio de um precipício – uma ideia absurda que povoa minha mente. Sem asas, sem chão. Uma queda infinita e dolorosa. Estou confusa. Nadando num emaranho de motivos para não amar e tão poucos para finalmente me dispor a sentir algo forte por alguém. Sou uma criatura fria e meu coração é antro desabitado. Tento uma distração barata, compro sonhos e pessoas fúteis, mas não estou em paz comigo mesma ao entardecer. Continuo triste, sentada numa cadeira de balanço, fumando um cigarro. Penso que deveria ter um filho e devotar a ele todo o infinito amor que guardo – mas logo reflito, e me dou conta de sufocaria qualquer fruto que viesse da minha árvore. Não sou boa. Não tenho requisitos suficientes para a felicidade. Eu só penso em escrever como me sinto e chorar. Mas não como as pessoas normais. Eu choro sangue. Eu tenho ratos falantes e amigos que atravessam paredes, como eu poderia ser uma boa mãe? Ninguém para dizer adeus, só um garoto franzino que eu julgo gostar. Um bem-querer. Um sentimento doloroso e frágil. Defeituoso. Meio morto. Digo que estou me desfazendo. Esses braços, essas mãos, este corpo – onde eu deixei? Tenho me perdido à beira do caminho. Tenho pensado demais, sofrido demais. As minhas pequenas mazelas diárias. Sou pequena. minúscula.
S o l i t á r i a .

domingo, 11 de novembro de 2012

Flor murcha



Você pode ter o meu corpo, mas nunca tocará na minha alma. Estou perdendo tempo, eu sei. Eu sei. Que horas você vem me buscar? Espero seu cavalo branco dobrar a esquina do meu pensamento. Com o coração tão acelerado, que parece que estão pisoteando o meu peito. Com os olhos tão cheios de lágrimas, mal posso conter o pinga-pinga. Quero dizer que andei pensando e não estou apaixonada. Mas agora isso não é importante, porque você também não está – não há nada para se lamentar até então. Eu só não tenho paciência pra ser simpática. Não, estou pouco me fodendo pra simpatia. Respondo rápido. Não respondo. Debulho sobre a cama – pensando e pensando. A flor murcha, meu coração quieto, esperando ser despertado. Um sopro de vida. Estou morta. Eu sinto que perdi. E fico procurando no ar, com as mãos espalmadas numa parede invisível. Não há nada para ser salvo, só o livro de ideias sobre como cometer um bom suicídio. Minha mãe grita o meu nome, está servido o almoço – um prato recoberto de pílulas coloridas. Volto a divagar no meu excesso de preocupação com as possíveis perdas que terei que enfrentar, decido, concluo, nunca poderia ser grande o bastante para absorver tudo sozinha. Tenho medo de não respirar mais – e no breu da situação apocalíptica, deixar cair no chão o meu amor próprio, seguido daquele espectro que chamam de alma. Estou perdida entre páginas sobre a proclamação da república e um copo de vodka, olhando por cima dos ombros, alguém que me diz adeus. Sem rodopios, sem chorumela, só o velho tilintar de taças se cruzando – e um sorriso quente que voa ao redor da sala de estar. Assusto o meu reflexo com a quantidade alarmante de cortes na alma e vejo que estaria viva se estivesse meio morta. Se eu não ligasse para as coisas importantes e focasse minha concentração no capitulo de uma novela idiota dessas. Ou se me deixasse levar pelos erros de português de um cara mediano, com um pedido de casamento sem luxo, indo morar numa casa de dois cômodos e um banheiro. Estou destruída porque perdi o fio da meada, e agora, jogada numa dança qualquer, eu tento retornar ao ponto em que podia prever o desenrolar dos fatos. Nada com que me preocupar. Só as voltas do relógio. As voltas do meu corpo enrolado em um nó cego. Degusto uma bala calibre 38. Porque a morte não pode me alcançar. A morte não pode vir até mim. A morte não dá beijo de boa noite. E ela odeia garotas insones. 


sábado, 10 de novembro de 2012

Salvos



Estou esperando chover. Uma nuvem se distrai com o tempo, enquanto o vento assobia uma canção de despedida. Todos conversam entre si e é possível sentir uma aura de que algo ficou perdido nas entrelinhas.
Carrego meu corpo para fora da estrada e caminho sem olhar para trás. Estou quieta na minha torre, ouvindo o noticiário e contando os mortos. Você deveria ser o meu pensamento principal, mas desde que aceitei a verdade, tenho percebido sua ausência em mim. Tem um buraco vazio e era lá onde você costumava estar. Não sei que brincadeira é essa, mas tenho esquecido os sentimentos fortes que eu tinha antes.
Não sei se a minha mudança se deve às orações que fizeram por mim, ou se foram todos aqueles remédios que eu tomei. Começa a chover. Começo a pensar que estou entrando em equilíbrio com as forças cósmicas. Sou um espectro que vigia pequenos acontecimentos. Estou dentro da normalidade. Estou agindo como esperam que eu aja.
Beach House, me faz lembrar o hospital psiquiátrico. A fila. O cara que dizia ser o presidente do Brasil e aquela mulher que falava dos cachorros do lado de fora. Aquela atmosfera ficou entranhada em mim. Eu deveria me envergonhar de confessar a verdade, mas eu já estava perdida demais para fingir não entender. Era madrugada ainda. Pessoas dormindo. Eu com tosse. Tão mal. E você comigo, inoculado nas veias – essa foi a minha maior doença. Eu to fodida. Meninas, tenha modos. Como pode existir educação quando algo em você está ardendo de tanta dor? 
A chuva se acalmou. Nós voltamos para casa depois de dormirmos abraçados no tapete. Ouvimos a velha história sobre amor e descansamos a consciência – estamos salvos. Daí tomamos a pílula no horário e simpatizamos com o resto do mundo. Façam tudo, mas não esqueçam de tomar a pílula. É ela quem faz a chuva parar o céu ficar azul. Ela te salvou dos demônios, lavou sua alma para o sono dos justos.