Dou voltas
no quarteirão. É tarde ainda, o sol espichado atrás da policlínica do centro.
Atravesso a Getúlio Vargas e sigo em direção ao bar do Castelinho. Creio que os
caras que ficam sentados nas calçadas devam saber quem eu sou. Creio que já
tenham sentindo meu cheiro de skarloff, ouvido minhas atrocidades. O demônio em
meus olhos deve ser bem nítido às vezes. Não sei. Eu só passo por lá, com minha
mochila, fones de ouvido e Pantera.
Desemboco na
antiga praça do Congresso. E sinto falta de quando havia drogados e mendigos
sentados por ali. E o cheiro de mato queimado – você deve imaginar o que falo.
Eles eram humanos demais. E enfeitavam bem o lugar, porque davam algum tipo de
essência àqueles bancos de mármore. E faziam minhas conversas flutuarem como
grandes futilidades de garota ambígua.
Eu tenho
medo de passar por ali. Não sei, depois que atravesso e dou de frente com
aquela escola de vagabundos e vadias de saia, parece que vou ser assaltada. Um
cara já me seguiu, uma vez. Mas finjo que estou segura. Me esgueiro até a praça
da Saudade e fico pensando em quando tinha alguém pra tirar sarro. Correr feito
louca para conseguir um banco de madeira vazio. E rir, porque não sou e nunca
serei sutil quando quero algo.
Mas não há ninguém.
Lembro que
está anoitecendo e que preciso voltar para casa. Recordo uma ligação de amor,
olhando a grama e a estátua no centro da praça. Parece brincadeira, mas esse lugar
está impregnado de fragmentos da minha vida. Dias bons. Dias vivos. Eu deixei, ou
melhor dizendo, eu perdi boa parte de mim para esses lugares todos. Me sinto vazia.
E inóspita. Amputada. Não posso me mover. Estou presa ao centro. Àquele beijo e
àquele tapa de impulsividade e descontrole. Talvez os turistas possam sentir que
Manaus captura sentimentos. E quando voltarem para sua terra natal, sentirão que
algo ficou preso numa daquelas praças. Ou no bar do Armando. Mas saberão que deixaram
algo. Perderam para a Paris dos trópicos.