quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Paris dos Trópicos



Dou voltas no quarteirão. É tarde ainda, o sol espichado atrás da policlínica do centro. Atravesso a Getúlio Vargas e sigo em direção ao bar do Castelinho. Creio que os caras que ficam sentados nas calçadas devam saber quem eu sou. Creio que já tenham sentindo meu cheiro de skarloff, ouvido minhas atrocidades. O demônio em meus olhos deve ser bem nítido às vezes. Não sei. Eu só passo por lá, com minha mochila, fones de ouvido e Pantera.
Desemboco na antiga praça do Congresso. E sinto falta de quando havia drogados e mendigos sentados por ali. E o cheiro de mato queimado – você deve imaginar o que falo. Eles eram humanos demais. E enfeitavam bem o lugar, porque davam algum tipo de essência àqueles bancos de mármore. E faziam minhas conversas flutuarem como grandes futilidades de garota ambígua.
Eu tenho medo de passar por ali. Não sei, depois que atravesso e dou de frente com aquela escola de vagabundos e vadias de saia, parece que vou ser assaltada. Um cara já me seguiu, uma vez. Mas finjo que estou segura. Me esgueiro até a praça da Saudade e fico pensando em quando tinha alguém pra tirar sarro. Correr feito louca para conseguir um banco de madeira vazio. E rir, porque não sou e nunca serei sutil quando quero algo.
Mas não há ninguém.
Lembro que está anoitecendo e que preciso voltar para casa. Recordo uma ligação de amor, olhando a grama e a estátua no centro da praça. Parece brincadeira, mas esse lugar está impregnado de fragmentos da minha vida. Dias bons. Dias vivos. Eu deixei, ou melhor dizendo, eu perdi boa parte de mim para esses lugares todos. Me sinto vazia. E inóspita. Amputada. Não posso me mover. Estou presa ao centro. Àquele beijo e àquele tapa de impulsividade e descontrole. Talvez os turistas possam sentir que Manaus captura sentimentos. E quando voltarem para sua terra natal, sentirão que algo ficou preso numa daquelas praças. Ou no bar do Armando. Mas saberão que deixaram algo. Perderam para a Paris dos trópicos.


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Piegas



Isso é mais um relato piegas. Estou a beira de me despir desta pele. Chorar não é suficiente. Nem sangrar. Fico olhando meu corpo morto, e pensando no meu cansaço. Não acredito que perdi tanto tempo... não acredito que contei meus segredos e me desprendi das minhas armas. Pessoas são cruéis. Eu deveria estar protegida por trás da vitrine. E fingir que estava bem.
Não dormi. E não consegui desligar. Fiquei pensando no resumo de filosofia, no comercial que preciso elaborar, no corte na coxa por causa do Daniel. É bobagem e fico feliz por ser a única a testemunhar isso. Do outro lado do espelho, no submundo do clamabo, talvez a criatura tenha amor por mim... de tanto ouvir meus balbucios e minhas orações. Creio que sim. Ela percebe que estou sangrando. E imita o meu olhar por solidariedade.
Não acredito que perdi tanto tempo. Despejando minhas inseguranças, minhas confissões. Agora eu tenho a plena certeza de que meus amigos imaginários e minhas histórias fantasiosas são inofensivos para mim. E benéficos. E sangrado. E santos. Não se pode confiar em carne e osso. Depois de te segurarem, as pessoas te soltam no escuro. Sozinha. No frio. No meio do caos. Não tem ninguém pra te orientar. Talvez a minha mãe entenda que eu simplesmente não consigo dormir as vezes.
Me sinto envergonhada. Porque fraquejei e deixei minha pele ferida exposta. Ninguém precisa saber dessas coisas... ninguém quer saber. Eu deveria ter pensando que o meu silêncio poderia me livrar da dor. Da possível facada. Não pensei. Fui tola. Caí. Então ele me diz que desiste de viver por mim e de me apertar nos braços. Porque não encaro a realidade. Porque fujo. Porque estou nervosa e grito desaforos. Ele diz que vai começar a viver por ele e me deixar de lado. Ou então ele para de banalizar meus sentimentos e decidi ir dormir. Desprezando-me.
Cuspindo em mim.
Chorar não é o suficiente. Nem bater o pé. Ou fazer cara feia. Não me sobrou nada. Só uma tristeza pequena, forte, lancinante. Que deturpa os pedaços da minha esperança utópica. Estou aprisionada em sua teia. Eu sugo seu veneno e perco os sentidos devagar. Exatamente da forma como sou nocauteada. Sem pressa. Mas de forma dolorosa. É piegas. Clichê. Sou eu. Mascarada, verdadeira. Jogando palavras ao vento. Sem brilho nos olhos.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Infiltrações



Acendi o cigarro. Os seios eriçados, eu me olhando no espelho. Observando meus cabelos vermelhos e os meus olhos sérios. Ele se aproximou, e acho que não colocou tanta vontade em suas mãos, mas acariciou-me.
- Seus seios estão maiores do que da última vez...
- Você acha?
Ele se deitou.
Continuei mirando meus olhos àquela garota desconhecida e apática. Mas não era porque estivesse distraída, a verdade é que gostaria de chorar. Eu era estúpida demais. Boba. E pequena. O cigarro acabara.
Suspirei.
Deitei ao seu lado. E fiquei olhando as infiltrações no teto. Meus sonhos miúdos se diluírem naquelas lágrimas silenciosas. Mas ele se dera conta.
- Verônica, porque está chorando?
Deveriam achar que eu era estranha e que não gostava da faculdade. Eu não gostava. E se eu era estranha, era por involuntariedade. Me fizeram ler a redação, só que ninguém gostou. Me fizeram reler. E jogaram meus sentimentos de manhã chuvosa na lama. Eu fugi da aula. Eu fugi das projeções, mas não poderia fugir de mim.
Ele se deitou sobre o meu corpo, acariciando meu rosto com a ponta dos dedos... Não gosto dos seus olhos, vejo exagero neles. Mas não me opus. Era a primeira vez que eu realmente estava me sentindo bem. Alguém me enxergava. A penumbra daquele quartinho gelado. A escuridão por onde eu tateava uma migalha de amor.
Ele me beijou, devagar. E sentiu meu cheiro. Não podia observar as famigeradas ideias pudicas se alinharem diante dos meus olhos. Ele me amava, ao menos, ao menos naquele instante. E beijava o meu corpo como se eu fosse alguma coisa valiosa. Deve ser uma bobagem dizer esse tipo de coisa, mas mentir para mim, justo para mim... é coisa de gente covarde. Suas mãos deslizando sobre a minha cintura, sua boca sugando meu seio e olhando para o meu rosto. Aquilo me envergonhava, porque depois de todos aqueles anos agindo como se eu o odiasse, naquele instante, eu estava rendida. E não tinha argumentos.
- Eu amo você.
Pensei que dizer que também o amava, mas as minhas palavras sempre voltam de forma venenosa e me adoecem. Permaneci calada. Olhando seus olhos exagerados, bagunçando seus cabelos pretos com as pontas dos dedos. Tentando não pensar... tentando não despencar da minha fuga. Minha sensação de irrealidade.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Meus amores estrangeiros.



Não sei se quero ir vê-lo. Mas penso que ele me daria atenção e seria amável comigo. Gosto disso. Gosto de beijá-lo. Gosto da maneira como ele me puxa para perto e simplesmente me beija sem pedir. Não me importo em conversar por horas. Seja o que eu for, ele ainda não se afastou. E parece gostar. Devo continuar. E ser isso. Uma prévia do que eu faria para não desapontá-lo. Mas essa deve ser eu. Creio. Sim, sou eu! Uma certeza fugaz presa em minha língua. Não sei até que ponto iremos. Tento não pensar e não me preocupar. Não o procuro. Receio que isso o afaste... permaneço quieta. Eu o aceito. Mas virá aquele domingo nefasto. Não posso estar sempre perto. O meu outro amigo prometeu que estaria comigo o dia inteiro. Embora eu ache que as suas intenções não são realmente verdadeiras, não posso negar o fato de que irei estar com ele. E abraçá-lo. E pensar que não estou sozinha. Pensar que ele gosta de mim, nem que seja um pouco... Talvez ele venha a me amar muito e a recíproca se torne verdadeira. Me amar. A minha família acredita que isso me fará bem, mas por dentro, embora eu sorria – convulsiono. E gemo. E choro. Alguma coisa apertando meu coração. Mãos ásperas e enraivecidas, aquele sentimento endurecido e inesperado que circula em minhas veias e me faz tão próxima da dor. Amor agourado. Imagens de fantasmas vivos. Desvio o olhar, tento conter a ânsia. Eu temo o escuro, o frio de não ter um abraço. Estou viva. Estou respirando. Volto a mim. E o dia acabou. O meu amado se esconde atrás de uma tela e me faz tocar o céu, porque o sentimento é verdadeiro. Ou talvez eu não perceba que esteja caindo para dentro de uma ideia desmembrada de relacionamento. Penso, mas divago e caminho em direção a alguma luz. Qualquer coisa é luz. E qualquer sorriso é afago. E o meu corpo é uma porta aberta. Meus braços são envoltórios de desenlaces. Minha boca pragueja um amor forte o suficiente para me trazer de volta a vida.
Meus amores estrangeiros.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Motivo


Você só tem tempo para uma conversa sobre o tempo. Se vai chover ou se fará sol. Depois você se encolhe, envergonhado, e se abraça ao seu casaco escuro, desviando o olhar para outra coisa que não seja a minha figura. E então eu olho de relance para os seus olhos, e acho que você está sério demais. Quieto. Tudo que você quer é ter uma boa desculpa para ir embora, caminhar apressado de volta a sua redoma de silêncio, e talvez ligar para algum amigo nosso e perguntar se eu finalmente cometi suicídio. Até porque seria uma notícia pequena. Não sairia no jornal. Nem na TV. Você só precisa saber se eu estou viva e depois agradecer a Deus pelo pouco de juízo que me restou. Mas não é um agradecimento sincero, porque eu sei, no fundo, no íntimo do seu coração, você esperava que eu morresse de uma vez. Pra não ter que saber de mim. Perguntar sobre mim. Você quer deixar essa parte da sua vida totalmente escondida de você mesmo. Porque eu não sirvo para boas recordações. Eu não presto para coexistir com a passividade do amor. Qualquer criatura, em sã consciência, compreenderia isso sem que você precisasse se explicar ou pedir desculpas. Não valeria a pena. Você tem razão. E então, no auto do meu egocentrismo, eu continuo viva, assombrando a sua memória como um demônio enraivecido e determinado. Foi o que a minha vida se tornou, afinal, um motivo para você dormir decepcionado. A razão para voltar aos cigarros e aos pensamentos sobre o vazio da nossa real existência. É um fato. Eu me dou conta. Sempre. Porque eu vivo comigo há mais tempo que você e eu compreendo o quão pesado é este fardo, porque eu o carrego, de veras. Sou eu. É a mim que dizem isso. Na minha cabeça. No meu coração. Eu sei que deveria estar morta, mas viver foi a única forma de me vingar de você. É a única forma que eu tenho de me autodestruir de maneira aceitável. Sádica. 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Você está bem?



Hoje eu fiquei na cama até mais tarde. A porta do banheiro entreaberta, podia jurar que ela estava se olhando no espelho, seus longos cabelos pretos escorridos nas costas. Eu não queria que ela me visse. Nem os outros, companheiros de clausura e escuridão. Não quero que falem comigo. Não quero que me vejam. Prefiro achar que estou invisível em minha cama, olhando sempre para o relógio para não perder a hora.
Me levanto e olho a claridade gritando entre as frestas da janela. Cedo, dentro da minha cabeça. Mas se eu demoro, o tempo escapole para muito longe, num salto absurdo. Caminho até a cozinha – é um pequeno caminho. Vejo se deixaram algo para o café, sempre o mesmo pão de hambúrguer, um pouco de leite e margarina. Abro a janela, mas não olho lá fora, não quero que os vizinhos me vejam. Não quero o céu me veja. Vou até a área de serviço e procuro a coelha, mas ela quase nunca está lá. Sinto falta de vê-la pela manhã.
Respondo as mensagens no celular. Desanimada. Pensando em voltar para a cama. Você está bem? Eu penso em dizer que gostaria de morrer, mas digo que está tudo nos conformes. Engulo a desesperança, embrulhada no vazio e na sonolência – que nunca me abandonam. Preparo algo para o almoço, eles esperam que eu acerte, mas não consigo. Meus amigos de confinamento se esvaíram depois que eu abandonei a cama. Entretanto, como todo filho pródigo, eu retorno. E fico por lá, me revirando. Cogito a ideia de tomar muitos antipsicóticos e me contorcer toda até perder a consciência. Penso que meus pais ficariam decepcionados demais comigo. E o seu amor minguaria. Penso que gostaria de colocar um ponto final nessa história chata.
Fecho os olhos e me nego a pensar que deveria chorar um pouco. Só aperto o rosto, mas não choro. Miro os olhos nos pregos do armário e fico imaginando que eles me observam e riem de mim. E as paredes, os moveis, as criaturas, todos me observando sucumbir. Ansiosos por uma atitude. Esperançosos que, de alguma forma, eu tome coragem para fazer alguma coisa. E os livre de precisar me ver todas as manhãs, daquele mesmo jeito. Com a mesma expressão mortificada.

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