quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Sem paz

Tempos difíceis. A coreografia do nado, na tentativa de sincronizar agonias de afogamento. Morte espreitando em cima do telhado, velando um corpo dormente, quieto e pálido. Deixei de contar as noites em que pouco dormi. Ou que fui despertada por um assombro terrível, a ponto de pedir ajuda. Gritar, em ânsia, cansada de procurar a paz que repousa nos sonhos. Já não encontro e o alicerce que possuo tem me deixado à deriva, solta nesse mar de monstros e pesadelos sufocantes. Comparo o tempo, com a época em que os tormentos se iniciaram. Vejo que aquelas tardes e aqueles assaltos à minha pouca luz eram meros gracejos. Nada teria acontecido se eu tivesse permanecido acordada. Eles não me enxergariam e eu teria menos peso para carregar hoje. Quando você não dorme, sua cabeça cria armadilhas. E você sempre cai nessas armadilhas. O outro é sempre errado. O dia é negro e não há felicidade. Que tempos difíceis! Qualquer toque é forte o suficiente para destruir. E a voz que vem de fora dilacera sem piedade. Logo o sol vai embora e o terror volta a todo o vapor. Ninguém para salvá-lo. Ninguém, além de você e o medo. E os espíritos. Mãos formigando, o travesseiro virou pedra. O cansaço nos olhos e aquelas vozes na sua cabeça que não deixam você adormecer. E ai de mim se não os escuto! Ai de mim se me nego a acender as luzes. Procuro atrás dos móveis, no banheiro, atrás das cortinas. O medo tingindo a brancura dos olhos, transformando em vermelho a sua vontade de não mais ver. Ou sentir. Ou temer. Eles se aproximam tanto que posso sentir suas respirações. O toque. A maldade. Rezo com todo o fervor que possuo e confio a Deus a luminosidade que não tenho comigo. Estou apavorada demais para correr. Apavorada para conseguir dormir. E se durmo, adentram meus sonhos, e tudo é um pesadelo. E tudo é terror. Volto a rezar, agora com lágrimas. O ar está frio e nada se move, a não ser meus pensamentos. As vozes. Eles.
Não tenho dormido. Estou me perdendo. Sinto muito medo.