É gelado aqui. E todos descansam em paz. Não me sinto
bem – alguma coisa sacolejando meu cérebro de um lado para o outro. Abro a janela,
está escuro e chove, olho para as árvores. Ninguém além da minha sombra.
Tomo os remédios. Mas às vezes, eu ouço a voz dela
gritar comigo. Estou na minha cama, de olhos fechados – ela começa a falar alto.
Tento voltar ao meu estado de inércia, mas estou agitada por dentro. Eu a chamo,
mas ela não está lá. A luz acesa, eu olho os azulejos do chão. Um choro pinga no
ar – gemidos e soluços. Estou viva. Estou acordada.
Deveria estudar. Ou perder meu tempo na rua, conhecendo
alguém. Não me sinto motivada a continuar com essa existência – ninguém acredita
em mim. Se eu tomo remédios demais para dormir, se falo demais, se estou triste
demais. Não me parece assustador esperar a morte. Perco tempo conversando com gente
que não se importa comigo. Gasto dinheiro. Gasto dinheiro. Fujo dos meus fantasmas
e tento voltar a dormir.