sábado, 21 de setembro de 2013

Amontoados



Como eu posso dormir com eles me olhando? Olhando quando eu troco de roupa, quando tomo banho. Quando roubo coisas. Desafino as notas do violão, numa madrugada chata. Não quero conversar. Um palhaço mal encarado e um travesseiro em formato de coração. Eu queria poder comer e dançar ao mesmo tempo. Escapo do quarto e vagueio pelo corredor, até a sala escura, em passos descompassados. Tomo um balde de café e mastigo a torrada, fazendo um barulho ensurdecedor. Essas ligações telefônicas que me deixam perto de ter um infarto. Essa gente que quer me ferir. Estou esperando ele me ensinar a usar um antivírus. Esperando minha mãe parar de dar explicações bíblicas para as coisas que eu conto eventualmente. A vontade que eu tenho é de mandar todo mundo a puta que pariu. Tem um mosquitinho atormentando minha vida, e todo santo dia ele suga minha paciência, antes que eu acorde e diga bom dia. Sabe aqueles cumprimentos de mão que as pessoas fazem ao se conhecer? Li algo sobre isso e é uma coisa ruim. Eu nunca gostei que tocassem em mim. É o aniversário de alguém amanhã. Sim, eu acertei. E não sei como. Ela me disse seu nome, quando surgiu perto da cama, numa daquelas noites estranhas. E me disse, eu me chamo angélica. O que ela era, afinal? Eles brincam com a minha vida, como se eu fosse um bumerangue, e fica me jogando no ar, mas não sabem que isso me deixa enjoada e com dor de estômago. Volto, mas são outras mãos que me seguram. Eu sinto a frieza e estremeço. Sabe, você não pode ceder. Porque você é o brinquedo da situação. Mesmo que você grite e que seu medo seja absurdamente grande ao ponto de não caber no quarto. Olhando azulejos e o xadrez nas paredes, o embalo se confronta com seu corpo desnudo e tira toda a sua capacidade de agir. Eles põem as mãos em minha cabeça e não acontece nada, porque não há nada lá. Filmando meu rosto, não gosto de ficar de olhos fechados. Eu não gosto do escuro. Cat Power não conseguiu promover seu álbum porque foi internada. Escutando Sea Of Love e imaginando uma família brincando na beira do mar. É engraçado, porque eu diria que deveriam tocar isso no meu funeral. Eu queria ver o povo chorando e daí poder voltar só pra dizer: Viu, bando de filho de uma puta, agora não tem mais eu aí nessa porra não. vão tudo se foder. Sinto falta daquela coelha pretinha que eu tinha, que eu só fui saber o sexo depois de seis meses. Não tem um bebê no meu útero. Não consigo mais comer direito, porque quando coloco o garfo na boca, me dou conta de que estou comendo um cadáver. Um cadáver de um animal que não me fez mal nenhum e que não merecia a morte. Como posso ser uma pessoa boa se eu como cadáveres de inocentes? Eu tento chegar ao nível de consciência que o Laércio falou, mas eu não consigo amar essa gente escrota que narra o que ta passando na TV no facebook. A verdade é que eu penso todo santo dia em dar um tiro na boca e não precisar falar com ninguém nunca mais. Mas tem o Sol. Ele é uma criança ainda. Quem vai dar comida a ele e quem vai dizer aquelas idiotices pra ele antes que ele me morda e eu o xingue? Eu entendo que a vida cause medo. E tudo que eu vejo naqueles olhos pretos é medo do mundo. Tudo que eu vejo ao meu redor é um amontoado de medos, roupas usadas e insensibilidade.

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