Como eu posso dormir com eles me olhando? Olhando quando eu
troco de roupa, quando tomo banho. Quando roubo coisas. Desafino as notas do
violão, numa madrugada chata. Não quero conversar. Um palhaço mal encarado e um
travesseiro em formato de coração. Eu queria poder comer e dançar ao mesmo
tempo. Escapo do quarto e vagueio pelo corredor, até a sala escura, em passos
descompassados. Tomo um balde de café e mastigo a torrada, fazendo um barulho
ensurdecedor. Essas ligações telefônicas que me deixam perto de ter um infarto.
Essa gente que quer me ferir. Estou esperando ele me ensinar a usar um
antivírus. Esperando minha mãe parar de dar explicações bíblicas para as coisas
que eu conto eventualmente. A vontade que eu tenho é de mandar todo mundo a
puta que pariu. Tem um mosquitinho atormentando minha vida, e todo santo dia
ele suga minha paciência, antes que eu acorde e diga bom dia. Sabe aqueles
cumprimentos de mão que as pessoas fazem ao se conhecer? Li algo sobre isso e é
uma coisa ruim. Eu nunca gostei que tocassem em mim. É o aniversário de alguém amanhã. Sim, eu acertei. E não sei como.
Ela me disse seu nome, quando surgiu perto da cama, numa daquelas noites
estranhas. E me disse, eu me chamo
angélica. O que ela era, afinal? Eles brincam com a minha vida, como se eu
fosse um bumerangue, e fica me jogando no ar, mas não sabem que isso me deixa
enjoada e com dor de estômago. Volto, mas são outras mãos que me seguram. Eu
sinto a frieza e estremeço. Sabe, você não pode ceder. Porque você é o
brinquedo da situação. Mesmo que você grite e que seu medo seja absurdamente
grande ao ponto de não caber no quarto. Olhando azulejos e o xadrez nas
paredes, o embalo se confronta com seu corpo desnudo e tira toda a sua
capacidade de agir. Eles põem as mãos em minha cabeça e não acontece nada,
porque não há nada lá. Filmando meu rosto, não gosto de ficar de olhos
fechados. Eu não gosto do escuro. Cat Power não conseguiu promover seu álbum
porque foi internada. Escutando Sea Of Love e imaginando uma família brincando
na beira do mar. É engraçado, porque eu diria que deveriam tocar isso no meu
funeral. Eu queria ver o povo chorando e daí poder voltar só pra dizer: Viu, bando de filho de uma puta, agora não
tem mais eu aí nessa porra não. vão tudo se foder. Sinto falta daquela
coelha pretinha que eu tinha, que eu só fui saber o sexo depois de seis meses.
Não tem um bebê no meu útero. Não consigo mais comer direito, porque quando
coloco o garfo na boca, me dou conta de que estou comendo um cadáver. Um
cadáver de um animal que não me fez mal nenhum e que não merecia a morte. Como
posso ser uma pessoa boa se eu como cadáveres de inocentes? Eu tento chegar ao
nível de consciência que o Laércio falou, mas eu não consigo amar essa gente
escrota que narra o que ta passando na TV no facebook. A verdade é que eu penso
todo santo dia em dar um tiro na boca e não precisar falar com ninguém nunca
mais. Mas tem o Sol. Ele é uma criança ainda. Quem vai dar comida a ele e quem
vai dizer aquelas idiotices pra ele antes que ele me morda e eu o xingue? Eu
entendo que a vida cause medo. E tudo que eu vejo naqueles olhos pretos é medo
do mundo. Tudo que eu vejo ao meu redor é um amontoado de medos, roupas usadas
e insensibilidade.
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