Você pode ter o meu corpo, mas nunca tocará na minha alma.
Estou perdendo tempo, eu sei. Eu sei. Que horas você vem me buscar? Espero seu
cavalo branco dobrar a esquina do meu pensamento. Com o coração tão acelerado,
que parece que estão pisoteando o meu peito. Com os olhos tão cheios de
lágrimas, mal posso conter o pinga-pinga. Quero dizer que andei pensando e não
estou apaixonada. Mas agora isso não é importante, porque você também não está
– não há nada para se lamentar até então. Eu só não tenho paciência pra ser
simpática. Não, estou pouco me fodendo pra simpatia. Respondo rápido. Não
respondo. Debulho sobre a cama – pensando e pensando. A flor murcha, meu
coração quieto, esperando ser despertado. Um sopro de vida. Estou morta. Eu
sinto que perdi. E fico procurando no ar, com as mãos espalmadas numa parede invisível.
Não há nada para ser salvo, só o livro de ideias sobre como cometer um bom suicídio.
Minha mãe grita o meu nome, está servido o almoço – um prato recoberto de pílulas
coloridas. Volto a divagar no meu excesso de preocupação com as possíveis perdas
que terei que enfrentar, decido, concluo, nunca poderia ser grande o bastante para
absorver tudo sozinha. Tenho medo de não respirar mais – e no breu da situação apocalíptica,
deixar cair no chão o meu amor próprio, seguido daquele espectro que chamam de alma.
Estou perdida entre páginas sobre a proclamação da república e um copo de vodka,
olhando por cima dos ombros, alguém que me diz adeus. Sem rodopios, sem chorumela,
só o velho tilintar de taças se cruzando – e um sorriso quente que voa ao redor
da sala de estar. Assusto o meu reflexo com a quantidade alarmante de cortes na
alma e vejo que estaria viva se estivesse meio morta. Se eu não ligasse para as
coisas importantes e focasse minha concentração no capitulo de uma novela idiota
dessas. Ou se me deixasse levar pelos erros de português de um cara mediano, com
um pedido de casamento sem luxo, indo morar numa casa de dois cômodos e um banheiro.
Estou destruída porque perdi o fio da meada, e agora, jogada numa dança qualquer,
eu tento retornar ao ponto em que podia prever o desenrolar dos fatos. Nada com
que me preocupar. Só as voltas do relógio. As voltas do meu corpo enrolado em um
nó cego. Degusto uma bala calibre 38. Porque a morte não pode me alcançar. A morte
não pode vir até mim. A morte não dá beijo de boa noite. E ela odeia garotas insones.
Nenhum comentário:
Postar um comentário