Eu disse pra virar à esquerda. O motorista me ignorou, eu bem
que poderia dar chute no meio da cara dele, mas daí, ele perderia a direção do
carro, bateria em algum poste, e não daria certo. Ficaria com a roupa
amarrotada. O que eu tenho a dizer sobre hoje? Bom, eu estou satisfeita em
minha poltrona, depois de me masturbar pensando no instrutor do laboratório de
informática. Você ignorou o sangue escorrendo do nariz daquela menina, com a
desculpa de me dar um abraço inoportuno. Eu odeio as suas demonstrações de amor
exageradas e piegas. Sou uma garota da cidade, que cultua um celular e uma
folha de papel em branco, com pensamentos longos sobre os propósitos de uma
vida tão vasta em desesperança. Um brinde àquele sorriso de flerte adolescente.
A felicidade do mundo está presente em uma boa noite de sono. Noites, essas, em
que me encontro perdida entre matar ou tortura a minha amiga de quarto –
insônia. Sinto-me tão próxima de tocar algo, irreal, complexo, tão absurdamente
inquietante! Não consigo organizar as ideias de uma forma coerente, então
termino num hospital, falando as minhas proezas e os meus planos para dominar o
mundo desses pobres mortais desconhecedores da verdade absoluta. Que está em
mim. Em meu sangue. Em minhas digitais. Ando achando que a vida é bem melhor
debaixo das cobertas, olhando as silhuetas bruxuleantes dos móveis, à espera
daquele monstro devorador de sonhos infantis. De criança melequenta. Deixo para
trás os meus anseios e as minhas verdades inquestionáveis sobre divindades
gentis, e me pego aos beijos com os sórdidos possuidores da dor humana. É tão
aconchegante, às vezes eu durmo e sonho que estou voando. Eu amo tanto, e de
tantas formas cruéis, que chego a me perguntar se eu realmente tenho
consciência de que estou me suicidando aos poucos. Longe do que faz parecer
insana, eu só desejo um emprego medíocre, que possa pagar uma dose de vodka e
jogar na cara daqueles filhos da puta, Eu
não preciso da porra do seu dinheiro. Jogar na minha cara que eu não
preciso de mim e da minha companhia. De certa forma, me livrar dessa parte que
me afoga. Que me engole e devora.
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