- Como se chama essa música?
- Never leave.
- Não conheço.
- É Seether.
Ele me beijou depois. Eu sentada em frente ao
espelho, fumando e olhando meu reflexo. Fumando
e se olhando no espelho? Era divertido ver a fumaça se dispersar. Até agora
você não sabe como eu realmente me senti, e acho que nem deveria saber. Seria
melhor que eu continuasse sendo a mesma garota fria que te arrastou pra um
motel barato e te fez comprar a bebida preferida dela. Nada demais. Depois dos
gemidos – acho que era a minha velha e costumeira dor na alma, eu acho que você
poderia me deixar sozinha na cama. Sem vergonha das minhas cicatrizes e sem
pensar que a minha vida estaria completamente acabada depois que as nossas
horas se acabassem. Seria melhor se você não exigisse amor de mim. Porque
aquilo não era nada sentimental. Era tudo, menos sentimental.
Selvageria. Cigarros. Gente mal encarada. Mas daí
eu estava feliz, porque de alguma forma, era pra isso que eu existia. E todo
aquele universo doentio fazia sentido. Eu fazia sentido. Embora estivesse
seguindo o caminho da morte, se me visse de perto, eu estava feliz em ser o
cordeiro. Eu sempre estive feliz com isso, mas você não se dava conta. Essa
minha forma de felicidade quase que instantânea feria o seu código de amor
incondicional. Porque se eu estava presa, o certo seria que aquilo me
libertasse, não era? Não era. Você não consegue entender que nada daquilo
poderia realmente me salvar de mim. Nada poderia. Olhando meu reflexo no
espelho, tudo que eu via, era uma garota que não era eu, mas que talvez, muito
de longe, estivesse pronta para enfrentar todo o inferno possível para alcançar
um tipo de realidade insistente. Aquele que vagueia nos sonhos, mas de fato não
pode existir, por ser cruel demais. Assassina demais. Sofrível. O sofrimento
era a única coisa que eu poderia oferecer. E as palavras vazias. Um eu te amo sussurrado. Incolor.
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