segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

O meu amor e a boneca

Eu sei que você tá mentindo. Eu sinto a minha pele se rasgar, enquanto espero o horario do remédio. Adoeci com o tempo frio, alguém roubou a minha espinha dorsal. Sou um peixe de olhos mortos. Um vaso trincado. Estou em chamas. E alguma coisa que mora no escuro, rondando os corações semi arrancados, alguma coisa... Esperando me ver passar. Tenho tido a impressão de que posso flutuar um pouco. Eu abro um corte e estou voando. Olhando aquele corpo deplorável com um olhar vazio através da janela. Penas de pássaros dorminhocos. Lembranças do outono passado.
Quero dividir com a minha sombra, o peso de um fardo que eu ganhei de presente. Ele era um garoto bonito, segurando na mão de uma garota bonita. Sim, eu acho que o tempo devorou o meu rosto. E mastigou minhas víceras com aquele ódio pegajoso que escorria dos seus lábios venenosos. Deixou-me no chão, a ver o velho saltitar de palavras de ensejo. Tão desprovida de argumentos e rédeas... Se eu adestrava meus demônios, hoje eles conseguem manter o pleno e total controle sobre o resto das coisas. Eu digo o resto, porque foi o que sobrou, depois de mim. Depois da morte. Esse tipo de desfalecer que nos faz morrer uma parte importante da alma. Deus, em suas nuvens, observando suas crianças no covil. Deve ser engraçado mandar queimar. Engraçado. Desastroso. Santificado.
Não posso correr. Um tipo de animal feroz surgiu no meio da clareira. O senhor de aparência bondosa amarrou minhas pernas para que eu nao fugisse. E naquele sonho de me deixar torturar, talvez, se eu estivesse realmente dentro do meu corpo, poderia dizer que me sentia lisonjeada. Esbocei um sorriso. Do fundo do meu peito, eu queria sorrir para ele e lhe tocar o rosto. Tão frio. Tão mal de coração. Escuro como o abismo da melancolia. Esperei e esperei. O meu amor segurando nas mãos de uma boneca de pano. Um doce sonho de criança jogado na lama. Fecheis os olhos.
Tentando esquecer a dor. Tentando alçar um voo a um lugar seguro. Pensando que talvez eu estivesse em minha cama, com meus livros e o meu melhor amigo. Tudo nos seus devidos lugares. Todos os meus sentimentos sagrados em seus respectivos lugares de origem.


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