- Eles foram
atraídos pela podridão... - Mirei os olhos do outro lado da rua, na enorme casa
de tijolos marrons.
- Quem
poderia imaginar que o velho Pedro poderia fazer tal coisa.
- Achei que
ele fosse só um homem reservado.
Luis se
aproximou dos vidros da janela e olhou para o mesmo lugar que eu.
- A vida já
não era suficiente para ele.
Sentei na
beira da cama, com os olhos voltados às minhas mãos pálidas e às minhas unhas
transparentes.
- Eu o
admiro pela coragem... Não importa o que você ache, eu acredito que ele foi
corajoso.
- Você acha
que se matar é um ato de coragem?
Permaneci
quieta por alguns segundos.
- Sim.
Luis
respirou fundo, piscando devagar.
- Esses
pensamentos outra vez?
- Que
pensamentos?
- Não se
faça de boba.
Emudeci.
Luis sentou-se ao meu lado.
- Puxar o
gatilho é fácil demais, Verônica...
- Existir às
vezes é um problema.
Luis ignorou
meu comentário e pegou em minhas mãos.
- Onde estão
seus poemas? Há tempos eu quero ler alguma coisa sua e você só me enrola...
- Não
consigo escrever nada coerente.
- Coerência
pra quê? Sua falta de sentido sempre me agradou.
- Será que o
Eduardo sente a minha falta?
Luis soltou
minhas mãos.
- Quem, seu
antigo psicólogo?
Assenti.
- Não sei
dizer... mas porque isso importaria agora?
- Às vezes
eu penso nisso.
Luis se
levantou e caminhou até a estante de livros.
- Você não
deveria gastar tanta energia mental com esse tipo de pensamento... se as
pessoas sentem a sua falta, ou não.
- Você é um
idiota.
Ele ficou
calado, me olhando por algum tempo. Eu me dispersara, Luís havia me irritado.
- Eu não vou
deixar você. Entenda.
Escondi o
rosto com as mãos. Luis voltou a sentar-se ao meu lado.
- Quer
sorvete de flocos? Eu posso comprar pra você.
Olhei para
ele, pensativa.
- Você volta
antes de anoitecer?
- Volto.
Fiz que sim
com a cabeça.
Luís me
beijou na testa e saiu.
Observei-o
alcançar a rua, seu casaco escuro e sua postura ereta. Logo que ele dobrou a
esquina, voltei a olhar a casa do morto, seus tijolos marrons e sua aparência
taciturna. Ele fora corajoso. A corda no pescoço, os dias desaparecido. Mas a
tristeza havia ido embora. Sorri e deitei sobre a cama, Luís traria sorvete.
...
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