terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Sorvete de Flocos



- Eles foram atraídos pela podridão... - Mirei os olhos do outro lado da rua, na enorme casa de tijolos marrons.
- Quem poderia imaginar que o velho Pedro poderia fazer tal coisa. 
- Achei que ele fosse só um homem reservado. 
Luis se aproximou dos vidros da janela e olhou para o mesmo lugar que eu.
- A vida já não era suficiente para ele.
Sentei na beira da cama, com os olhos voltados às minhas mãos pálidas e às minhas unhas transparentes.
- Eu o admiro pela coragem... Não importa o que você ache, eu acredito que ele foi corajoso.
- Você acha que se matar é um ato de coragem?
Permaneci quieta por alguns segundos.
- Sim.
Luis respirou fundo, piscando devagar.
- Esses pensamentos outra vez?
- Que pensamentos?
- Não se faça de boba.
Emudeci. Luis sentou-se ao meu lado.
- Puxar o gatilho é fácil demais, Verônica...
- Existir às vezes é um problema.
Luis ignorou meu comentário e pegou em minhas mãos.
- Onde estão seus poemas? Há tempos eu quero ler alguma coisa sua e você só me enrola...
- Não consigo escrever nada coerente.
- Coerência pra quê? Sua falta de sentido sempre me agradou.
- Será que o Eduardo sente a minha falta?
Luis soltou minhas mãos.
- Quem, seu antigo psicólogo?
Assenti.
- Não sei dizer... mas porque isso importaria agora?
- Às vezes eu penso nisso.
Luis se levantou e caminhou até a estante de livros.
- Você não deveria gastar tanta energia mental com esse tipo de pensamento... se as pessoas sentem a sua falta, ou não.
- Você é um idiota.
Ele ficou calado, me olhando por algum tempo. Eu me dispersara, Luís havia me irritado.
- Eu não vou deixar você. Entenda.
Escondi o rosto com as mãos. Luis voltou a sentar-se ao meu lado.
- Quer sorvete de flocos? Eu posso comprar pra você.
Olhei para ele, pensativa.
- Você volta antes de anoitecer?
- Volto.
Fiz que sim com a cabeça.
Luís me beijou na testa e saiu.
Observei-o alcançar a rua, seu casaco escuro e sua postura ereta. Logo que ele dobrou a esquina, voltei a olhar a casa do morto, seus tijolos marrons e sua aparência taciturna. Ele fora corajoso. A corda no pescoço, os dias desaparecido. Mas a tristeza havia ido embora. Sorri e deitei sobre a cama, Luís traria sorvete.

...

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