Eu sei que eu já devo ter mencionado que as suas visitas me
salvaram muitas vezes, mas eu nunca vou deixar de citar isso. Pelo menos agora,
dessa vez. A minha mãe acha que você tem pena de mim e por muito tempo eu
também acreditei que você continuou sendo amigo por que achava que seria errado
me abandonar. Seja o que for, me ajudou bastante. Quando eu era só uma
universitária deslocada naquela faculdade longe de casa, você apareceu com seu
sorriso agradável e se ofereceu pra ir comigo até o a unidade dez. As minhas mãos
tremiam e por mais que eu tentasse sorrir, a minha expressão de assombro era nítida.
Mas você não se importou – aparentemente. Você me deixou na porta da sala e disse
que havia sido um prazer me conhecer. Isso me encorajou.
Fiquei surpresa ao ver você outras vezes por ali, já que estudávamos
em unidades diferentes. Eu não queria agir como uma caipira perdida, então tentava
fingir que sabia o que estava fazendo. Você dizia, tantos estudantes de psicologia juntos, vão acabar entrando nos meus pensamentos
– e eu ria, porque você agia feito um bobo pra me deixar menos tensa. Só não entendia
o motivo de você insistir em conversar comigo, já que eu não falava quase nada.
A verdade é que eu gostava de ouvir sua voz e ver a maneira com que você se expressava.
Ficava imaginando que seria bom escrever sobre isso, mas não tinha coragem de analisar
minuciosamente as minhas impressões sobre você.
Quando você me convidou para ir à sua casa, achei que aquilo não
era sério. Você sabia pouco de mim e as outras pessoas me evitavam porque achavam
que eu podia causar problemas. Eu sei, as pessoas falavam de mim pelas costas. E
se eu causasse problemas? Você tinha o poder me desfazer. – Espero que não se importe, só temos batata frita
e carne de hambúrguer – você falou, meio envergonhado. Não importava se não
tivesse nada. Não importava se você morasse debaixo da ponte. Com uma gentileza
absurda, você me mostrou sua coleção de CDs, os desenhos míticos que você fazia
e as medalhas que você ganhou em campeonatos de natação. Seus pequenos tesouros.
Eu estava feliz porque você os havia mostrado a mim.
- A maioria das pessoas pode acreditar que você é fria... Mas
eu percebo a sua sensibilidade pela forma que você olha para as coisas.
A sua voz me assustou, num primeiro instante. De alguma forma,
você estava ligado a mim e podia ver meus pensamentos bagunçados. Tomei ar. Acho
que você não se lembra, mas eu fiquei olhando seus sapatos por um longo tempo, esperando
que você trocasse de assunto e agisse como se não tivesse dito nada. Foi o que você
fez. Eu amava você. E nem importava se eu estava me precipitando. Eu amava e poderia
ter-lhe dito aquilo naquele mesmo instante, se você me perguntasse. Mas você não
perguntou. Me ofereceu café e riu quando eu disse que não tomava.
Eu sabia que colocaria tudo a perder. Como das outras vezes, incontáveis,
trágicas. Na esperança de sanar o buraco congênito que havia em minha alma, eu destruiria
a sua forma de gostar de mim. E você iria embora. Sou egoísta e não gosto de perder
pessoas. Sou inconstante e passo longe de certezas absolutas. Você esteve ao meu
lado depois que o tempo ficou realmente turvo. Cuidou dos meus ferimentos, me deu
abrigo depois das bebedeiras, me consolou quando as circunstâncias me forçaram ao
isolamento. E se eu por acaso confessasse a você, o que eu sentia? Qualquer pessoa
se sentiria sufocada. Eu já te sufocava. Você deve ter lembranças horríveis das
minhas ligações durante a madrugada. As coisas que eu te dizia e o sofrimento por
que eu te fazia passar – me culpo. Mas eu não conseguia parar. Não podia simplesmente
parar. Quando o mundo entrava em caos, e eu estava com você, comendo torta nas proximidades
da faculdade, e você largava tudo para me pegar pelos ombros e abrandar o meu choro.
Eu queria lhe dizer que eu não entendia nada sobre aquilo. E que não conseguia me
conter. Eu não conseguia me conter. Agradeço a sua paciência. Agradeço o tempo devotado
a mim. Mas hoje, neste dia... preciso lhe dizer que estou cansada de me sentir assim.
Você me trouxe momentos de felicidade, mas nada nesse mundo poderia devolver a mim
o que foi roubado. Isto é uma carta de adeus, à única pessoa que eu amei verdadeiramente
e a quem poderia dar a vida. Espero que você me perdoe. Espero que você não odeie.
As pílulas me aguardam para um sono reconfortante e onde não há mais dor, sofrimento
e vazio.
Verônica.
Nenhum comentário:
Postar um comentário