terça-feira, 19 de março de 2013

Prazer, Verônica



Não sou predestinada por um transtorno, mesmo que ele se embole ao meu eu, interno e intransponível. Quero voar e quero beijar os seus lábios com a mesma paixão da primeira vez. Eu quero cortar os braços até enxergar os ossos. Mas fico aqui, paralisada, tentando decifrar o meu reflexo e a garota atrás do espelho. Minha alma encolhe, pequena, dentro deste corpo grande. Algo como um segundo eu, tomando conta, mas ele é bruto e não sabe entender sutilizas. Eu, pequena, observo, até retornar, e conseguir habitar todas as partes do meu corpo. O médico deverá achar que eu sou louca, não sei. Borderlines tem isso? Eu deito na cama e fecho os olhos, alguma musica tocando, elas se misturam, mas são agradáveis. Desaparecem. Depois voltam, eu de olhos abertos, alguém cochichando aos meus ouvidos. Deveria sentir medo, mas eu só queria poder ficar quieta.
Sair de casa reforça a ideia de estou sendo difamada. Na faculdade, aquela corja de putas e playboys falam mal de mim. Quando eu chegava na sala, todos me olhavam e não gostavam de mim. Eu podia sentir. Aquilo me deixava tensa. Aquele ar, vejam a garota do cabelo vermelho, o poema idiota dela e o jeito idiota que ela tem. Porra, eu queria entrar nas conversas e mostrar que também tenho senso de humor. Eu queria um sorriso pra mim. Queria que sentissem minha falta. Queria que ligassem e perguntassem: porque você desistiu de publicidade?
Foi como psicologia. Além daquela dor horrível por ter perdido o amor da minha vida, havia a insatisfação com aquelas matérias idiotas. A sensação de não pertencer aquele grupo de mulheres bem entendidas e detentoras de bons conselhos. Eu era um câncer. E sempre que eu entrava naquela sala, eu sentia, em cada parte do corpo, uma dor que me fazia querer morrer. Doía o corpo, o corpo da alma. Doía saber que eu estava sem o meu namorado anjo da guarda. Era doloroso perceber a solidão e o abismo que havia entre eu e aquela gente feliz.
O álcool me levou ao inferno muitas vezes. Mas devo confessar que alcei voos incríveis. E vivi momentos inteiramente felizes. Mas eram tão raros... quase sempre eu estava chorando ao telefone, ou me cortando no banheiro, com o chuveiro ligado. Pensando que ele estava amando outra garota e que eu amava não somente a ele, mas aquele meu outro melhor amigo, que estava pouco se fodendo para mim. Era dor. Não era vida. Era dor.
Ficar doente gravemente era uma boa saída. Sair da vida, fechar as cortinas, descansar dos males que haviam levado a alegria de mim. Fiquei doente, mas me obrigaram a tomar remédios. Eu deveria ter fumado mais, pra ter agravado o caso. Vacilei. Sobrevivi. E aquele vazio que o meu amor deixou quando partiu, aquela imensidão de tristeza e trevas. Quem poderia salvar-me? Bom, eu tinha um teclado. E ficava horas e horas tocando a mesma música triste, porque era como eu me sentia. Absolutamente triste e morta. Depressão profunda, disseram. Remédios. Sono induzido. Vazio crônico. Me deram uma coelha. Mas não era só uma coelha, era minha vida, daquele dia em diante. E se eu consegui melhorar, foi por causa daquela pequena criatura. Eu a abraçava antes de dormir (a hora mais difícil do dia) e chorava baixinho. Ela não respondia, mas olhava para mim com aqueles olhos arregalados. Presentes. Eu sabia que a teria. Sabia que ela não me abandonaria ou me esqueceria, por pior que eu fosse com todos.
E depois desses anos, eu ainda estou por aqui. Aos pedaços, como sempre estive, só que mais disposta. Consigo sorrir. Consigo dormir. Consigo cultivar momentos bons. Mas o vazio e a tristeza me rondam sempre. Junto com os cortes. Os remédios. A vida a qual estou presa. É bem isso. E aliás, roubaram a coelha.


Nenhum comentário:

Postar um comentário