domingo, 7 de abril de 2013

Borderlagens



- E se isso fosse um sonho? E a realidade viesse depois da morte?
Luís estalou os dedos das mãos, olhando para o chão, pensativo.
Eu continuei.
- Um jogo maldoso entre Deus e o diabo, pra ver quem aguenta mais.
- Acho que você precisa parar de pensar essas coisas sem sentido.
- Sem sentido? Acha mesmo que não tem sentido nisso? Diga com sinceridade.
Luís se manteve quieto.
- Até você concorda – retruquei, sentando na cama, ao seu lado.
- Você funciona diferente das outras garotas. Tem ideias diferentes.
- É como diria a Effy, de skins. Eu nasci ao contrário. Eu funciono ao contrário.
- Aquela garota é muito boba.
- Somos bobas, temos isso em comum.
Luís riu.
- Elas pelo menos não tem essas teorias mirabolantes que você propõe.
- Porque eu penso.
- Isso é negatividade, Verônica.
- Ok, sou negativa. Mas não deixo de ser racional.
- E cadê as provas que validam sua teoria?
Ri.
- Olhe para mim! Eu sou a prova viva! A minha vida é um pesadelo, e eu só posso me libertar dele com a morte, por que depois dela vem o que é real.
Luís me observou por um tempo.
- Não racionalize seu desejo de morte.
Baixei a cabeça.
- Tenho lapsos de memória. As vezes não sei se estou acordada ou sonhando... a solidão é tão presente, que sinto-a tocar em meus ombros. Me arrepio.
- Alucinações, delírios?
- Minha vida. Basicamente, isso. Sou tão feliz que posso morrer. Sou tão triste que posso me matar. As coisas sempre chegam na palavra morte.
- Você se alegraria se eu dissesse que é provocante?
Fiquei olhando Luís e o seu sorriso bobo.
- Você me banaliza, mas tá bom, eu me alegrei agora.
Ele me beijou no rosto.
- Você tem cheiro de cigarro. – falei.
- Mas eu não fumo.
Claro. Ele não fumava. Eu fumava. Eu fantasiava.
- Tá certo.
- Sem pensamentos de morte por hoje, pequena provocadora?
Ri.
- Vou tomar os remédios e dormir. Sonhar a vida.
Luís se despediu. Era quase noite. Voltei para o quarto e divaguei sobre o pesadelo. Minha existência. A realidade depois que o coração para de bater.
Borderlagens.


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