quinta-feira, 11 de abril de 2013

Pro Luís ler



Estou escrevendo ao meu amigo. Hoje foi um daqueles dias que eu não gosto, igual a noventa por cento da semana. Quinta. Ouvi dizer que lançariam as bombas ontem, então eu não teria consulta hoje. Mas não houve ataques nucleares e eu tive que ir encontrar com o psiquiatra. Luís, lhe digo que aquele homem bondoso é, se não, um outro carrasco sem escrúpulos e nocivo. Me enoja! Diga-se de passagem, nosso sentimento era denso, mas dissipou-se. Acabou.
Faço parte da escória do Cid 10. Como tudo nessa porra de mundo, me deram um número para qualificar minha loucura. 60.3 – estou dodói do coração e juízo. É triste saber que nem mesmo aquela doce psicóloga pôde gravar este número (eu). Não. Nem isso. O mestre tinha uma tatuagem nos pulsos e uma aliança – veja o quanto o amor é cruel, meu amigo Luís. Bom, foda-se.
Decepções regadas a goles de café. Foi o que me tornei. E hoje, estou assim, neste ânimo funesto e defeituoso. Parada em minha casa, redigindo este texto prolixo, chato e pedante. Para reafirmar a quem quer que seja, sou disfuncional. A verdade é que sinto falta das suas visitas, sinto falta do Fellipe. Sinto falta da coelha que roubaram.
Esse outro que tenho é carinhoso, mas tão vazio! Vejo o meu reflexo nele. Um vazio. Uma opacidade. Cheio de carinho, mas tão cheio de nada... a outra tinha espírito forte e agia por si só. Isso era bonito de ver. E eu não pensava em comê-la. Tenho passado as tardes sozinha em casa. Leio, me acabo de comer, assisto filmes. Engordei dois quilos. Não consigo parar. Eu preciso da sua mão para me amarrar os punhos ao pé da cama. Preciso refrear-me. Mas é difícil.
Sinto um medo absurdo de perder minha família. Medo de perder, qualquer coisa que eu acho ser meu. Eu sei que cairia fundo se perdesse. Acho que finalmente ficaria tudo escuro e eu não acharia o caminho de volta para casa. Sou uma borderline ansiosa – pleonasmo detectado. Sou uma alma pedinchona e meio morta. Meio murchinha. Espero que leia isso bem depois do jantar, porque causa náuseas. Das minhas mãos saem minhocas, besouros, varejeiras. Você conhece o meu talento para fulgurar escrotisses.
Se eu for condenada ao inferno, vou ser cobrada por cada palavra infame que praguejei e deixei escapulir da boca, com saliva. Deus deve ter anotado minhas frases para jogá-las na minha cara no dia do juízo final. É tenso, mas prefiro não pensar. Acredito que ele deve perdoar-me porque estou com o coração inflamado e preciso – urgentemente – colocar isso para fora. Sem maldade ou segundas intenções. Apenas porque necessito esvaziar. E ficar vazia da sensação de vazio que me preenche.
Estou cansada. Decepcionada. Sozinha. Espero que esteja aproveitando o frio. Vou dormir, embora não haja descanso nem nos sonhos. Vou procurar a fé que deixei escapar. Devo encontrá-la numa dessas páginas. Tropeçar nela meio que “sem querer”.
Abraços afetuosos, Verônica.

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