Daria minha vida para sentir algo. Diferente de quando eu
estou em coma, sobre a cama, sonhando uma realidade, misturada ao caos do
subconsciente bagunçado. Fumo meus cigarros, em silêncio, olhando através da
janela. Neste quarto escuro, desvio a atenção para alguma coisa que tente me
tirar da inércia. Tem sangue. Dor. Mas eu não sinto nada. E até se alguém por
aqui morresse, eu continuaria presa nesse universo gelado. Respirando, mas ao
mesmo tempo morta.
Desisto da humanidade. Não quero atender ao telefone. Não
quero dar notícias e nem sair do quarto. Não consigo pensar em me alimentar e
nem mesmo sentir a brisa do lado de fora. Fecho a janela, as cortinas, só a
fumaça do cigarro vagueando pelo ar e uma promessa de que eu teria um futuro
melhor. Tudo jogado no lixo.
Um pássaro bate contra o vidro. Um corpo morto desliza até
cair na grama. Fico olhando as cortinas escuras, os lanhos de sangue
escorrendo, mas devagar. Solitária e fria como um iceberg. Mergulhada e
aprisionada de fundo de um oceano distante. Eu deveria cortar os pulsos agora e
descontar toda a minha raiva em algo que valha a pena. Se eu ferir alguém que
não seja eu, eles nunca entenderiam. Eles não enxergam com meus olhos. E não
sentem como eu sinto.
Olho essa estranha no espelho. Esses olhos ocos e cheios de
lodo. Um choro que secou há tanto tempo. Isso não pode ser real. Quero dizer,
existem monstros do outro lado? Eu poderia quebrá-lo com um soco. Poderia
quebrar-me e ficar olhando os pedaços sangrando no chão. Não quero sair daqui.
Não quero ver luz. Se eu pensar com vontade, poderia simplesmente deixar de
existir? Eu queria poder desaparecer. E cortar os pulsos. Eu já morri. Mas
porque eu continuo aqui? Tudo que eu posso sentir é raiva.
Tudo que as pessoas tem de mim é raiva.
Volto
pra cama e acendo um cigarro. O dia escorrendo, minha vida deslizando na ponta
da faca.
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