terça-feira, 16 de julho de 2013

Tarde morta




Daria minha vida para sentir algo. Diferente de quando eu estou em coma, sobre a cama, sonhando uma realidade, misturada ao caos do subconsciente bagunçado. Fumo meus cigarros, em silêncio, olhando através da janela. Neste quarto escuro, desvio a atenção para alguma coisa que tente me tirar da inércia. Tem sangue. Dor. Mas eu não sinto nada. E até se alguém por aqui morresse, eu continuaria presa nesse universo gelado. Respirando, mas ao mesmo tempo morta.
Desisto da humanidade. Não quero atender ao telefone. Não quero dar notícias e nem sair do quarto. Não consigo pensar em me alimentar e nem mesmo sentir a brisa do lado de fora. Fecho a janela, as cortinas, só a fumaça do cigarro vagueando pelo ar e uma promessa de que eu teria um futuro melhor. Tudo jogado no lixo.
Um pássaro bate contra o vidro. Um corpo morto desliza até cair na grama. Fico olhando as cortinas escuras, os lanhos de sangue escorrendo, mas devagar. Solitária e fria como um iceberg. Mergulhada e aprisionada de fundo de um oceano distante. Eu deveria cortar os pulsos agora e descontar toda a minha raiva em algo que valha a pena. Se eu ferir alguém que não seja eu, eles nunca entenderiam. Eles não enxergam com meus olhos. E não sentem como eu sinto.
Olho essa estranha no espelho. Esses olhos ocos e cheios de lodo. Um choro que secou há tanto tempo. Isso não pode ser real. Quero dizer, existem monstros do outro lado? Eu poderia quebrá-lo com um soco. Poderia quebrar-me e ficar olhando os pedaços sangrando no chão. Não quero sair daqui. Não quero ver luz. Se eu pensar com vontade, poderia simplesmente deixar de existir? Eu queria poder desaparecer. E cortar os pulsos. Eu já morri. Mas porque eu continuo aqui? Tudo que eu posso sentir é raiva.
Tudo que as pessoas tem de mim é raiva.
Volto pra cama e acendo um cigarro. O dia escorrendo, minha vida deslizando na ponta da faca.

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