Dou um tempo. Pra você fazer algo do seu interesse. Tento
não pensar o que isso poderia ser. Ignoro ideias. Prendo minha atenção em
alguma banalidade. Meus pensamentos se esbarram, assustados. Não consigo seguir
uma linha reta. Uma bagunça por dentro. Tento continuar caminhando, meu inimigo
à espreita, no corpo de uma mulher simpática, num grupo de amigos que passam ao
meu lado. Estremeço e tento conter o impulso de correr. Não posso. Continuo
caminhando, suando frio, o coração oscilando. Avisto minha mãe, lhe dou um
abraço apertado e uma lágrima despenca dos olhos. Estou com medo. Tento comer algo, estou irritada demais para
conversar. Irritada para respirar. Essa ansiedade me deixa nauseada. Este
corpo, esta vida. Me sinto uma estranha entre as pessoas. Penso em morrer.
Acendo um cigarro, as mãos tremendo. Não, eu não posso sair de casa nunca mais.
Não consigo terminá-lo, estou desnorteada. Estou assustada. Deito na cama,
tento organizar os pensamentos, mas sou um atropelo. Formas e rabiscos. Ideias
estranhas. O quarto escuro é meu refúgio, meu porto seguro. Nada poderá tocar
em mim. Fecho os olhos. Alguém cantando. Meu Deus, eu não suporto isso. Calem a
boca. Mas a casa está silenciosa. Você
tem que se matar. Tento conter a respiração. Não, eu não posso dar ouvidos
a isso. Levanto da cama, caminho pelo quarto, minha mãe pergunta se eu não vou
tomar o remédio. É o quinto dia livre das drogas. Não vou tomar isso nunca mais. Ela escutou a voz? Será que ela
ouviu? Não. Ninguém ouviu. Mas eu sou alguém, não sou? Volto pra cama. Alguém
tenta conversar comigo sobre fumar tanto. Não respondo. Alguma coisa batendo na
parede insistentemente. O diabo não me deixa dormir. Batidas e mais batidas.
Sento na cama, tento chorar, mas não consigo. Olhos vazios. Tome seu remédio. Ignoro minha mãe e
continuo a fitar o nada. Pensando seriamente em obedecer a voz e acabar com
tudo aquilo. Respiro fundo, volto a deitar. Tento conter a ânsia, viro de um
lado para o outro. Desespero. O quarto escuro. Batidas. Enfim, eu adormeço.
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