Acendi um cigarro, olhando as folhas secas no chão do
quintal. O tempo morto, o ar voando ao redor do meu corpo, num prenúncio de
tempestade.
- Suicídio em câmera lenta?
Luís surgira através da porta dos fundos. Seu casacão, seus
olhos cintilantes.
- Vou morrer de qualquer forma.
- Não entendo porque todos os fumantes dizem isso.
Soltei a fumaça pela boca, sem responder ao comentário.
Sentia-me cansada, era o terceiro dia sem dormir. Eu simplesmente não conseguia
desligar meu cérebro. Minha mãe dissera,
tome seus remédios, mas não adiantava tomá-los. Não adiantava lutar contra
aquilo.
- Não pense tão negativo. – Luís cortou meus pensamentos.
- Está ouvindo o que digo em minha mente?
- É previsível, pelo jeito que olha essas folhas secas.
- Eles acham que eu não sei, mas estão fazendo planos ruins
pra mim.
Luís sentou-se de frente para mim, depois de suspirar.
- Planos?
- Quando estou na cama e não consigo dormir. Eles se reúnem
para planejar coisas...
- Que coisas, Verônica?
- Não me chame por esse nome.
Luís cruzou as mãos na frente do corpo.
- Pedro sumiu essa noite. Ele ri de mim o tempo inteiro.
Mesmo que eu não esteja perto, eu posso sentir as apunhaladas em meu coração.
Eu sei que ele está com outra garota. Eu sei que ele fala mal de mim para ela.
Luís ficou calado.
- Porque eu sou uma droga de garota. Eu sou uma porcaria,
Luís. Entende isso? E as pessoas conseguem enxergar isso, tão bruscamente, que
me deixa tonta. E tudo que eu mereço é a morte. Eu mereço esse cigarro e essa
morte lenta. Mas como posso aceitar que as pessoas que eu amo, façam coisas
contra mim?
- Verônica...
- Não me chame assim! – gritei. Olhando severamente para a
expressão séria de Luís. Voltei a fumar. – Não sei o quanto eu suportarei. As
pessoas não me deixam em paz. Onde eu vou, eu vejo os risos. Eu ouço. Eu sinto
o asco. Não consigo respirar direito...
- Você fuma demais.
- Cala essa boca! – voltei a gritar, jogando o cigarro no
chão e pisando até apagá-lo. – até você. Até você! Onde esteve esse tempo todo?
Fazendo planos, junto com todos eles. É isso, é tudo um plano pra acabar
comigo. Vocês querem me ver no chão, destruída!
- Helena, me ouça...
Voltei a acender outro cigarro, as mãos tremendo.
- Não posso confiar. Eu não posso dizer as coisas. Pedro me
vigia. Vigia os meus passos. A minha mãe também. E você. E a minha família. Eu
não sei o que estão fazendo, mas eu sei que estão. Não posso dizer as coisas...
eu não posso.
- Helena, está tomando seu remédio?
- Mas que porra de remédio! Eu não preciso disso.
- Quando vai falar com o médico?
- Você só me responde com perguntas... veja só. Veja isso! Eu
confiei minha vida a você. Eu fiz tudo. Tudo que você me pediu. Ó, céus... eu deveria
estar morta.
Luís ficou em silêncio novamente, eu olhando para a fumaça do
cigarro. Assustada e arisca. Logo, ele tirou o cigarro da minha mão e a beijou.
Observei-o. Sem vontade de me livrar de sua figura. Num movimento cauteloso, ele
sentou-se ao meu lado e me abraçou. E por mais que eu soubesse que aquele abraço
me cortaria em pedaços, não pude negá-lo. Eu queria ser abraçada. Queria que alguém
me sentisse viva. Porque por dentro, eu estava em decomposição. Gritando, enquanto
os vermes comiam as minhas ideias, o meu corpo.
- Faça isso parar... – sibilei.
Luís respirou fundo.
- Vai parar... logo vai parar... e ficaremos juntos.
- Pra sempre?
Ele demorou a responder. O vento nos rodeando.
- Para todo o sempre.
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