domingo, 3 de fevereiro de 2013

Amor



A luminosidade ferrou-me sobre as pálpebras, franzi as sobrancelhas, agitando-me entre os lençóis da cama. Abri os olhos devagar, Igor com os braços cruzados, à beira da porta, obscuro.
As janelas do casebre estavam abertas, podia ver as folhas das árvores densas e a cor do céu, indeciso entre azul e o cinza pesado.
- Dormiu bem?
Sentei-me no meio da cama, os joelhos salientes por baixo das cobertas, estava semi-despida e exausta. A sua voz contradizia seus olhos angustiados, usava aquela máscara feita às pressas, descartável, ineficaz. 
- Um pouco... – evitei olhá-lo.
Igor continuou na mesma posição, eu podia ouvi-lo respirar. Uni as mãos, olhando minhas unhas curtas por algum tempo, queria que ele me deixasse sozinha. Mas tudo que ele fez foi se aproximar de mim bruscamente.
- Você o amava, não amava? – ele grunhiu apertando minha mandíbula.
Tentei empurrá-lo, mas Igor era forte e me imobilizou, deitando-me na cama, enquanto segurava meus braços.
- Você o amava? – ele gritou, apertando meus braços com mais força.
- Quem, quem? – as lágrimas estavam postas em meu rosto.
- Aquele cara da cafeteria! Aquele que eu matei, você o amava?
Uma lágrima salgada tocou minha língua. Ofegante, totalmente desprotegida.
- Não... – grunhi.
Igor continuou a olhar-me daquela forma demoníaca.
- Não?
- Nunca... – solucei, virando meu rosto para não vê-lo mais.
Aos poucos ele foi me libertando, era uma cena repetida. A diferença era que daquela vez eu não tinha energia para escapar. Igor, então, continuou deitado sobre o meu corpo, e parecia acalmar-se, como um menino imaturo. Ele recostou sua cabeça sobre meu peito, ouvindo meu coração bater descompassado.
Esperava por isso, desde aquela noite. Não sabia como e nem quando ele perguntaria, mas sabia que seria de forma violenta. Amor. Como, por que motivos, Deus? Não havia sentido para mim. Eu nunca mais saberia que gosto aquilo tinha, e no fundo, não desejava saber. Estava certa disso, não havia nada para pensar a respeito daquilo.
- Verônica...? – ele sibilou. Me dera conta de que ele chorava, porque suas lágrimas encharcavam o lençol sobre mim. – Você ainda está acordada? 
- Sim... – minha voz era quase inaudível.
Ele se ergueu para me olhar.
- Eu amo os seus olhos. – Igor se aproximou do meu rosto, roçando seu nariz no meu – E o seu cheiro... – devagar, ele foi escorregando seus lábios até a minha bochecha e descendo até meu pescoço.
Meu corpo cansado. Meu olhar inexpressivo.
Eu prefiro morrer a ficar sem você. – Igor sussurrou ao meu ouvido. Sua voz grave, melancólica, obscena. – Entende?
Não.
- Sim.
Sem tanta força, ele puxou meus cabelos e beijou meus lábios. Em seguida, ergueu-se novamente e começou a tirar as roupas.
A luminosidade desaparecera.


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