Você
só tem tempo para uma conversa sobre o tempo. Se vai chover ou se fará sol.
Depois você se encolhe, envergonhado, e se abraça ao seu casaco escuro,
desviando o olhar para outra coisa que não seja a minha figura. E então eu olho
de relance para os seus olhos, e acho que você está sério demais. Quieto. Tudo
que você quer é ter uma boa desculpa para ir embora, caminhar apressado de
volta a sua redoma de silêncio, e talvez ligar para algum amigo nosso e
perguntar se eu finalmente cometi suicídio. Até porque seria uma notícia
pequena. Não sairia no jornal. Nem na TV. Você só precisa saber se eu estou viva
e depois agradecer a Deus pelo pouco de juízo que me restou. Mas não é um
agradecimento sincero, porque eu sei, no fundo, no íntimo do seu coração, você
esperava que eu morresse de uma vez. Pra não ter que saber de mim. Perguntar
sobre mim. Você quer deixar essa parte da sua vida totalmente escondida de você
mesmo. Porque eu não sirvo para boas recordações. Eu não presto para coexistir
com a passividade do amor. Qualquer criatura, em sã consciência, compreenderia
isso sem que você precisasse se explicar ou pedir desculpas. Não valeria a
pena. Você tem razão. E então, no auto do meu egocentrismo, eu continuo viva,
assombrando a sua memória como um demônio enraivecido e determinado. Foi o que
a minha vida se tornou, afinal, um motivo para você dormir decepcionado. A
razão para voltar aos cigarros e aos pensamentos sobre o vazio da nossa real
existência. É um fato. Eu me dou conta. Sempre. Porque eu vivo comigo há mais
tempo que você e eu compreendo o quão pesado é este fardo, porque eu o carrego,
de veras. Sou eu. É a mim que dizem isso. Na minha cabeça. No meu coração. Eu
sei que deveria estar morta, mas viver foi a única forma de me vingar de você.
É a única forma que eu tenho de me autodestruir de maneira aceitável. Sádica.
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