quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Infiltrações



Acendi o cigarro. Os seios eriçados, eu me olhando no espelho. Observando meus cabelos vermelhos e os meus olhos sérios. Ele se aproximou, e acho que não colocou tanta vontade em suas mãos, mas acariciou-me.
- Seus seios estão maiores do que da última vez...
- Você acha?
Ele se deitou.
Continuei mirando meus olhos àquela garota desconhecida e apática. Mas não era porque estivesse distraída, a verdade é que gostaria de chorar. Eu era estúpida demais. Boba. E pequena. O cigarro acabara.
Suspirei.
Deitei ao seu lado. E fiquei olhando as infiltrações no teto. Meus sonhos miúdos se diluírem naquelas lágrimas silenciosas. Mas ele se dera conta.
- Verônica, porque está chorando?
Deveriam achar que eu era estranha e que não gostava da faculdade. Eu não gostava. E se eu era estranha, era por involuntariedade. Me fizeram ler a redação, só que ninguém gostou. Me fizeram reler. E jogaram meus sentimentos de manhã chuvosa na lama. Eu fugi da aula. Eu fugi das projeções, mas não poderia fugir de mim.
Ele se deitou sobre o meu corpo, acariciando meu rosto com a ponta dos dedos... Não gosto dos seus olhos, vejo exagero neles. Mas não me opus. Era a primeira vez que eu realmente estava me sentindo bem. Alguém me enxergava. A penumbra daquele quartinho gelado. A escuridão por onde eu tateava uma migalha de amor.
Ele me beijou, devagar. E sentiu meu cheiro. Não podia observar as famigeradas ideias pudicas se alinharem diante dos meus olhos. Ele me amava, ao menos, ao menos naquele instante. E beijava o meu corpo como se eu fosse alguma coisa valiosa. Deve ser uma bobagem dizer esse tipo de coisa, mas mentir para mim, justo para mim... é coisa de gente covarde. Suas mãos deslizando sobre a minha cintura, sua boca sugando meu seio e olhando para o meu rosto. Aquilo me envergonhava, porque depois de todos aqueles anos agindo como se eu o odiasse, naquele instante, eu estava rendida. E não tinha argumentos.
- Eu amo você.
Pensei que dizer que também o amava, mas as minhas palavras sempre voltam de forma venenosa e me adoecem. Permaneci calada. Olhando seus olhos exagerados, bagunçando seus cabelos pretos com as pontas dos dedos. Tentando não pensar... tentando não despencar da minha fuga. Minha sensação de irrealidade.

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