terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Você está bem?



Hoje eu fiquei na cama até mais tarde. A porta do banheiro entreaberta, podia jurar que ela estava se olhando no espelho, seus longos cabelos pretos escorridos nas costas. Eu não queria que ela me visse. Nem os outros, companheiros de clausura e escuridão. Não quero que falem comigo. Não quero que me vejam. Prefiro achar que estou invisível em minha cama, olhando sempre para o relógio para não perder a hora.
Me levanto e olho a claridade gritando entre as frestas da janela. Cedo, dentro da minha cabeça. Mas se eu demoro, o tempo escapole para muito longe, num salto absurdo. Caminho até a cozinha – é um pequeno caminho. Vejo se deixaram algo para o café, sempre o mesmo pão de hambúrguer, um pouco de leite e margarina. Abro a janela, mas não olho lá fora, não quero que os vizinhos me vejam. Não quero o céu me veja. Vou até a área de serviço e procuro a coelha, mas ela quase nunca está lá. Sinto falta de vê-la pela manhã.
Respondo as mensagens no celular. Desanimada. Pensando em voltar para a cama. Você está bem? Eu penso em dizer que gostaria de morrer, mas digo que está tudo nos conformes. Engulo a desesperança, embrulhada no vazio e na sonolência – que nunca me abandonam. Preparo algo para o almoço, eles esperam que eu acerte, mas não consigo. Meus amigos de confinamento se esvaíram depois que eu abandonei a cama. Entretanto, como todo filho pródigo, eu retorno. E fico por lá, me revirando. Cogito a ideia de tomar muitos antipsicóticos e me contorcer toda até perder a consciência. Penso que meus pais ficariam decepcionados demais comigo. E o seu amor minguaria. Penso que gostaria de colocar um ponto final nessa história chata.
Fecho os olhos e me nego a pensar que deveria chorar um pouco. Só aperto o rosto, mas não choro. Miro os olhos nos pregos do armário e fico imaginando que eles me observam e riem de mim. E as paredes, os moveis, as criaturas, todos me observando sucumbir. Ansiosos por uma atitude. Esperançosos que, de alguma forma, eu tome coragem para fazer alguma coisa. E os livre de precisar me ver todas as manhãs, daquele mesmo jeito. Com a mesma expressão mortificada.

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