Hoje eu
fiquei na cama até mais tarde. A porta do banheiro entreaberta, podia jurar que
ela estava se olhando no espelho, seus longos cabelos pretos escorridos nas
costas. Eu não queria que ela me visse. Nem os outros, companheiros de clausura
e escuridão. Não quero que falem comigo. Não quero que me vejam. Prefiro achar
que estou invisível em minha cama, olhando sempre para o relógio para não
perder a hora.
Me levanto e
olho a claridade gritando entre as frestas da janela. Cedo, dentro da minha
cabeça. Mas se eu demoro, o tempo escapole para muito longe, num salto absurdo.
Caminho até a cozinha – é um pequeno caminho. Vejo se deixaram algo para o
café, sempre o mesmo pão de hambúrguer, um pouco de leite e margarina. Abro a
janela, mas não olho lá fora, não quero que os vizinhos me vejam. Não quero o céu
me veja. Vou até a área de serviço e procuro a coelha, mas ela quase nunca está
lá. Sinto falta de vê-la pela manhã.
Respondo as
mensagens no celular. Desanimada. Pensando em voltar para a cama. Você está bem? Eu penso em dizer que
gostaria de morrer, mas digo que está tudo nos conformes. Engulo a
desesperança, embrulhada no vazio e na sonolência – que nunca me abandonam.
Preparo algo para o almoço, eles esperam que eu acerte, mas não consigo. Meus
amigos de confinamento se esvaíram depois que eu abandonei a cama. Entretanto,
como todo filho pródigo, eu retorno. E fico por lá, me revirando. Cogito a
ideia de tomar muitos antipsicóticos e me contorcer toda até perder a
consciência. Penso que meus pais ficariam decepcionados demais comigo. E o seu
amor minguaria. Penso que gostaria de colocar um ponto final nessa história chata.
Fecho os olhos
e me nego a pensar que deveria chorar um pouco. Só aperto o rosto, mas não choro.
Miro os olhos nos pregos do armário e fico imaginando que eles me observam e riem
de mim. E as paredes, os moveis, as criaturas, todos me observando sucumbir. Ansiosos
por uma atitude. Esperançosos que, de alguma forma, eu tome coragem para fazer alguma
coisa. E os livre de precisar me ver todas as manhãs, daquele mesmo jeito. Com a
mesma expressão mortificada.
...
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