quinta-feira, 28 de junho de 2012

Ansiolíticos e Vodka


Cheguei em casa. Sozinha, corri para o quarto e fiquei lá. Tire as duas cartelas do bolso e fiquei olhando para elas. As pequenas e lindas pílulas brancas. Vinte comprimidos. Eu dormiria muito, muito. Mas seria o suficiente? Deitei na cama e esperei o mundo parar de girar. Foram longas horas. Eu quieta, calma, o pensamento deitado ao meu lado, olhando para mim, esperando até que eu tivesse um pouco de coragem. O tempo esfriou e uma penugem fúnebre enfeitava a copa das árvores do quintal. Meu pai ainda não chegara. Ninguém em casa. Só as empregadas preparando o jantar, eram quase oito da noite. Eu me mataria.
Antes, porém eu tinha que fazer uma ligação. Desejar boa sorte a Pedro, já que eu não assistiria sua luta. Disquei os números, sem ter certeza se ele me atenderia. Esperei. Não demorou e ele atendeu.
- Helena, você, me ligando?
Eu ri.
- Pois é... Seu idiota. Eu só queria te desejar boa sorte na luta.
- Como assim, você não vai?
Fiquei em silêncio por alguns segundos.
- Não... acho que não vou não...
- E porque? Eu queria tanto que você fosse...
- Desculpe, não vou poder ir.
- Porque? – Ele continuou.
Já não fazia diferença o que ele pensaria de mim. Ou o que faria, já que não havia nada a ser feito.
- Vou me matar.
- O quê, Helena, como assim?
- Tchau.
Desliguei o telefone e corri para o quarto.
Tirei a garrafa de vodka da bolsa e calmamente comecei a engolir as pílulas. Uma por uma, bem devagar. A cada pílula, uma golada de vodka e o pensamento de que eu finalmente abandonaria aquele universo asqueroso e cruel ao qual eu me infiltrara.  Seria perfeito, seria indolor. Eu dormiria. Fernando não conseguiria me acordar para ir a escola. Mortos não assistem aula, nem acordam pela manhã, ou saem por aí fazendo idiotices que não levam a nada. Acendi um cigarro, depois de engolir as vinte pílulas, fiquei sentada no chão, fumando, sentindo a brisa gelada da noite e a cabeça começar a pesar. O cigarro acabou. Eu acabara. Era o final de uma história triste, mas sem melodramas e frases de efeito. Lembrei o meu saudoso Wether, e imaginei o que ele sentira antes de puxar o gatilho. Seria a mesma coisa que eu sentia naquele instante? Eu estava bêbada e sonolenta demais para ir além com aqueles pensamentos. Aos poucos, pensando no meu protagonista, meu corpo foi tombando, decaindo como se eu fosse uma boneca de pano. Então recostei o rosto no piso e perdi totalmente a consciência.



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