quarta-feira, 20 de junho de 2012

Goethe


No sábado, eu decidi que não iria à casa de Angelina. Eu estava cansada e acordara me sentindo triste. Solitária. Sim, eu me sentia assim constantemente, mas ninguém sabia. Nem eu gostava de saber. Era melhor mascarar tudo com as minhas rebeldias, embora houvesse uma guerra árdua no meu coração, onde eu sempre saia meio morta. Ferida. Ninguém desconfiava.
Fiquei em casa lendo Goethe, eu adorava aquele drama todo. Já havia lido aquilo umas quatro vezes, mas não me cansava. Lia de novo. Sabia as frases de cor e salteado. Considerava uma história triste, porque havia suicídio e amor não correspondido. Era uma dor, um sentimento que só eu poderia sentir. Eu sentia aquilo, eu queria morrer de verdade algumas vezes, e achava que Werther fora corajoso em se matar. Eu não tinha coragem, tudo que eu fazia era cortar os pulsos superficialmente e adormecer com o sangue escorrendo e a dor.
Usava uma munhequeira no pulso. Só tirava quando não havia ninguém vendo, aquilo me envergonhava. Eu deveria ser forte e aparentar ter algum tipo de força. Era isso ou ser devorada pelos canibais com a boca suja. Fazia tanto tempo... tantas cicatrizes. Tantas noites sem dormir pensando nas pessoas que eu amava. Pensando que não deveria amar ninguém e simplesmente esquecer a forma de amar alguém. Nunca esqueci. Embora, com o passar dos anos, tenha aprendido a não me apegar aos outros. Os cortes diminuíram, mas eu sempre soube que eu nunca conseguiria parar.
Angelina vira meu pulso uma única vez na vida. Eu estava bêbada e havia começado a chorar no banco da praça, pensando em minha mãe. Morta. No meu pai que a matara. A munhequeira esquentava o corte, o sangue a fizera se apregoar na minha pele. Puxei-a com toda a força que tinha e joguei-a no chão. Angelina havia bebido comigo, mas estava mais sóbria do que eu. Nunca esquecerei a forma com que ela me olhou.
- Você fez isso?
Eu fizera muitas coisas ruins. A grande verdade, é que eu me sentia extremamente péssima com tudo e com todos. O meu universo interno era habitado por criaturas raivosas e cheias de dor. Por minhas diversas faces. Meus diversos olhos. Meu coração em rebuliço. Eu deveria me cortar.
- Foi o diabo que fez isso.
Peguei a munhequeira do chão e coloquei-a de volta no pulso. Parei de chorar. Não adiantava chorar. Chorar não consertava o que estava quebrado. Chorar não me fazia ser uma garota melhor.

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