Eu sou aquela filha da puta que fica por último.
Aqueles remédios todos, bom, eu acredito que deveriam ter feito algum tipo de
efeito em mim. Mas tudo que eu sinto é a mesma velha sensação de estar à espera
da morte. Com as mãos acorrentadas e os pés grudados no chão. Não há fuga, não
há caminho e não há para onde ir. Daí eu me pego pensando numa época em que
achei que era feliz, e me amaldiçoo por ter jogado tudo no lixo. E volto a me
sentir incapacitada para novas e boas comoções. Infértil. Sem cor.
Morta.
E ninguém vai entender os meus motivos e porque eu
simplesmente precisava me destruir. Embora eu tente explicar isso ao cara da
terapia, ele surge com respostas e figuras que eu nunca poderia ter, ou pensar.
Ele surge com um modelo de garota que não combina com o que eu penso ser. Volto
a perder a imagem que eu tinha de mim, e me pergunto em que ponto exato do
caminho, eu deixei escapar o fôlego da felicidade. Ou do contentamento. Da paz.
Eu só estou morta.
E mortos não precisam de terapia. Eles precisam de
vida. É o que tenho almejado. Penso nisso antes de dormir, depois de engolir as
pílulas, antes de fechar os olhos para mais uma noite angustiante. Eu tento
pensar na minha vida. Me sobra uma vontade imensa de abrir uma fenda nos
pulsos, superficial e traiçoeira. Eu caio em mim, num sono premeditado e
amargo. Acordo com a impressão de que estou me desfazendo com o passar do
tempo. Acho que estou me decompondo.
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