Não sei como dizer essas coisas. Até porque essas coisas
não podem ser ditas. Ou pensadas. Ou imaginadas. Estou no âmago do fundo do poço.
E por aqui é tudo meio escuro. É gelado. Como minha alma desfalecida. Falta uma
coisa que eu perdi. Melhor dizer a verdade e te acusar de ladrão. Ligar para a polícia
e dizer, aos prantos, que você roubou o sentido da minha existência. Chorar as lágrimas
que eu aperto com a ponta dos dedos, para que não se encontrem com o chão. Era de
se esperar que eu fraquejasse e lhe dissesse que não tenho vivido bem. Jogar diante
de você as cartas opostas a tudo que você tem me dito. Estou bem, a minha vida está uma maravilha, eu tenho uma namorada e um
emprego de estagiário. Você também tem uma faca e uma vítima morta do outro
lado da cidade.
Essas coisas não deveriam ser ditas. Porque ao dizer
isso, me envolvo bruscamente numa batalha de amor e ódio. Numa briga comigo mesma,
onde não importa o que aconteça, eu saio derrotada. Sangrando. Olhando ao redor,
sem entender como e porque cheguei a esse ponto. Lágrimas me escorrem dos olhos.
Eu só posso parabenizá-lo por destruir mais um dos meus dias estáveis. Obrigada
por olhar pra baixo e por sorrir a sua alegria costumeira de quem tudo suporta.
Voltarei pra casa com as mãos abanando e uma expressão que muito vagamente tenta
explicar certas coisas que não sei dizer. Apenas sinto, profundamente.
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