Estamos parados no mesmo ponto de antes. Em todas as
direções existe um carrasco faminto. Ele vive solitário em sua ilha de soluções
baratas. E gosta de comer criancinhas birrentas que não obedecem aos pais.
Era uma noite inquieta, o vento uivava. Eu na cama, os
olhos arregalados no teto, aquela sensação de que estou extremamente viva. Daí vem
aquela canção desengonçada no ar. Perco o fôlego. Levanto da cama e procuro o som.
Está pela casa, nas paredes, se esgueira até o quarto dos meus pais. Entro. Vestido
longo, calor. A mulher acorda e pergunta o que estou fazendo. Mas que diabos, você não tá escutando a música? Não tá ouvindo?
Não tem música. Daí ela levanta da cama e acende todas
as luzes da casa. Eu continuo andando e mordendo o lábio, procurando a música. A
mulher começa a chorar. Fragmentos de medo e dúvida. Me olhando com aquele olhar,
ela fez de novo. O meu pai continua dormindo.
Um dia eu acordo de madrugada e os mato. A música parou.
Me ofereceram dois calmantes. Essas malditas pílulas
que fodem o meu cérebro. O vento continuava cantando do lado de fora, agora acompanhado
de ganidos e ranger de dentes. Volto para cama, olhos secos, pensamentos confusos
e bagunçados, minha mãe me olhando furar o teto com os olhos.
Um pânico se instala quando ela some de vista. Eu sei,
no fundo, ela vai me matar um dia desses. Me preparo para uma facada. Ela surge,
passa um óleo cheiroso na minha testa, meu corpo estremece. Medo da morte. Medo
dela. Medo de respirar. O cheiro do óleo me deixa em pânico. Figuras bruxuleantes
no teto.
Estou viva.
Estou viva.
Estou presa à vida.
Durmo, viro um zumbi no dia seguinte.
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