Hoje vai ter show. Eu quero sair pra fumar um pouco
e jogar conversa fora numa praça qualquer. Com roupas de frio e aquela certeza
no olhar. Certa de que estou fazendo um bom trabalho. Certa de que não preciso
voltar atrás.
A consequência vem em forma de agressão física. Não
adianta você chorar, gritar, ou ameaçar. Faz parte do espetáculo, um pouco de
dor e sangue. Os espectadores gostam da ousadia de quem faz o trabalho sujo,
não há nada mais especifico.
Acendo o terceiro cigarro, olhando o movimenta nas
ruas. Acho que deveria estar provendo vida, mas me olho amarrada a uma pedra
gigante que começa a afundar. Minha sanidade solta baforadas na minha cara e
cospe sua bebida no meu casaco. Tão louca da vida, acho que alguém precisa de
uma ambulância.
Um empurrão. A plateia vibra. Depois dois gritos e
uma garota com espasmos musculares. A vizinhança espera o desenlace da
história, a menina sozinha no quintal escuro, tremendo e chorando lágrimas de
loucura. Ninguém entende as mordidas nos pulsos, eles só sabem que ela mereceu
uma tapa. Ninguém entende os arranhões e os olhos no vazio.
Onde não se vê nada. Só a sombra de uma felicidade
que existiu. Algum dia. Esse doce dia ficou no passado. Está destruído, torto.
Passou do tempo. Combino um passeio com um desconhecido e ouso dizer que sou
uma garota de sorte. Mas sei onde estou indo. Sei que estou perto de cair. Sei
que não será um bom futuro.
Eu sei que mortos não falam. E não ouvem os aplausos
ao fim do show.
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