Eles ligam para me pedir que vá também. Me
despeço de um amigo e apressadamente tomo a rua. A gente se fala mais tarde.
- Mãe, preciso tomar os remédios.
- Estão na bolsa – minha mãe me olha por cima do
vidro da janela. – Entra no carro –
Eu entro.
E fico lá, respondendo sms, ouvindo música
eletrônica e desejando nunca chegar na casa da minha avó. Eu só queria que o
meu pai dirigisse e me levasse pra bem longe. Só guiasse o carro, sem fazer
perguntas que me obriguem a sair da minha clausura. Entro na parte superficial
da minha pele, e descubro que habito uma constelação de estrelas apagadas.
Morta, por baixo da roupa e dentro dos olhos.
Chegando lá, eu sorrio e tento aparentar
felicidade. Escondida, eu engulo as cinco pílulas que me fazem ser menos doida.
Um desespero bobo enche meu peito depois que tomo água. Minhas mãos tremem e
meu coração acelera. Diriam que eu preciso de um namorado e até a minha melhor
amiga confessaria que isso é o que me falta. Mas eu discordo. E chego a pensar
que o meu grande problema foi ter namorado algum dia. Me atenho à uma vida de
solidão, textos tristes e músicas fúnebres.
Minha mãe fala, liga pra ele, diz que você o ama. Mas ela não entende que não se
pode quebrar o fio da meada e sucumbir ao ato de implorar. Não quero implorar e
não quero voltar àquela história antiga. Não consigo ser a mesma garota, não
consigo pensar em repetir páginas e atitudes. Não quero ouvir a voz dele,
porque morro. Estou morta ao ouvi-la. Morta de medo de que tudo aquilo volte.
Aquelas noites. Aquela época. Dentro do carro, sozinha em minha ilha de
pensamentos, nada pode me fazer voltar. Andar para trás.
Não.
Estou de volta à uma atmosfera suicida. Mas não
estou completamente triste. Eu ensaio uma tristeza. Eu sei as respostas. E sei
que não há nada de novo. O cara da terapia não acredita em mim. O lance dele é
me fazer desacreditar que estou doente. Você
não é manipuladora. Nem depressiva. Você precisa viver a dor do real. Eu
grito ao garçom e peço mais uma dose de tequila. No meu pensamento. Na minha
historinha sem final. A dor me tirou as amarras. Eu brinquei com lúcifer e
terminei com um corte na mão.
A noite eu tomo uma pílula para ter sonhos bons.
Ouvindo uma música triste e pensando que estou acostumada com uma vida pela
metade.
Tenho medo do amor verdadeiro.
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