sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Eu, morta


Pedro me deixava impaciente. Quando dizia que me amava, quando tentava cuidar de mim. Aquilo mexia comigo, deixava minha cabeça bagunçada, era uma desordem de sentimentos que eu não podia conter. Era algo forte demais para que eu pudesse segurar com as mãos. Era um sentimento sólido, mas fugaz e volátil ao mesmo tempo. Eu o amava. Mas depois já não era amor, era desprezo. Era uma desorganização absurda e isso me deixava nervosa.
Voltei para casa. Me prendi aos meus quadros e aos meus livros. Meu pai chegou cedo. Observei da escada ele se sentar na poltrona e ligar a TV. Em cima da mesinha de centro, uma garrafa de uísque num balde de gelo. Ele afrouxou a gravata e tirou os sapatos, ligou no noticiário, aumentou o volume. Eu quieta, olhando sua nuca. Roendo uma unha imaginária, pensando em roubar um pouco da sua bebida.
Queria esquecer a bagunça na cabeça, o ódio pelo meu pai e o meu sentimento desgovernado por Pedro. Eu faltara o curso, não sabia bem porque, mas não queria ouvir aquele Bon après-midi, les jeunes, e o professor zanzando pela sala em busca de atenção com seu francês carregado de um sotaque regionalista. Eu não queria precisar passar pelo beco também, porque minhas esperanças estavam minguadas com relação à possibilidade de pertencer àquele lugar. Eu não era de lugar algum. Eu não pertenceria aquilo.
Pintei metade de um quadro, rezando para aquela vontade de encher a cara simplesmente me deixasse quieta. Doía ficar sóbria. Doía odiar alguém. Doía viver. Pensei no suicídio. Pensei em tentar outra vez. Continuei pintando. Eu, morta. Meu pai pagaria o velório, sem lágrimas, eu teria uma boa lápide e haveria minha foto nela, sorrindo, um daqueles sorrisos bobos de porta retrato. Pedro jogaria flores sobre o caixão, Angelina chorando. Eu quieta, olhando do alto, ao lado de Werther, nós dois com as mãos unidas olhando a terra escura cair sobre a madeira.
Parei de pintar.
Sentei sobre a cama, ofegante. Tentei buscar fôlego. Vou roubar sua bebida, vou roubar os seus cigarros. Onze da noite, tarde demais para fugir pela janela. Tarde para visitar Angelina, tarde para almoçar na casa de Pedro. Corri pelo quarto, procurando nos meus esconderijos alguma garrafa de bebida ou uma caixa de cigarro. Sabia que não acharia bebida. Eu sabia que não acharia, mas e se surgisse ali, por mágica? Me concentrei em procurar, mas não achei nada. Só uma caixinha de cigarro dentro de um pote decorativo.
Passei a noite fumando. Pensando. Fumando. Chorando.
A janela aberta e a fumaça empestando o quarto. Eu sentada no chão, com roupas de dormir, sem conseguir pregar o olho, olhando o céu, as estrelas no breu, os galhos das árvores do quintal. E se eu ligasse para Pedro e lhe pedisse bebida? E se dissesse a ele que estava morrendo por dentro e que pensava em suicídio oura vez. Não Helena, não faça isso. Não acorde ninguém. Aquela dor no peito, aquele tédio, aquela maldição de vida! Terminei o sétimo cigarro e peguei um estilete na gaveta do criado mudo.
Ergui um lado do shorts e abri um enorme fenda na coxa esquerda. O sangue sujou o lençol da cama. Puxei-o e o joguei sobre o chão. Fiquei lá, tentando manter a calma e não quebrar o quarto  inteiro. Estava com raiva de mim, raiva do mundo, raiva do meu pai. Eu poderia sair do quarto e sorrateiramente cortar a garganta dele. Com o som do noticiário, ele não escutaria meus passos. Pensa, pensa. Guardei o estilete na gaveta outra vez e fiquei olhando o sangue estancar. Fora um corte largo e um pouco fundo. Merecia uns pontos. Esperei sangrar mais até rasgar um pedaço do lençol e fazer um curativo improvisado.
O sangue não parou de jorrar, pelo menos até eu fumar o resto dos cigarros na caixa. Pensando, sentindo a dor, o pano enrolado na coxa totalmente ensopado. Nem liguei, a raiva passara, agora só havia restado a vontade de morrer. De cortar a garganta e morrer. Matar o meu pai, depois me matar.
Alguém bateu na porta, me virei, fiquei esperando que entrasse. Não veio ninguém. Tirei o pano da coxa e caminhei até a porta, abri-a, o corredor vazio. Me dispus a ir até a escada novamente, meu pai dormia, a cabeça pendendo para o lado esquerdo, a garrafa de uísque pela metade. Tudo como antes. Voltei ao quarto, o sangue escorrendo até a panturrilha, passei a mão, observei o sangue entre os dedos, corri para a pia e lavei a mão, tentei conter o sangue com papel higiênico. Não funcionou muito, acabei deitada na cama, com o pedaço do lençol amarrado na coxa.
Dormi.

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