segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Sobre mim


Não gosto de ruas movimentadas e de televisão. Sou uma jovem alcoólatra e me chamo Helena. Moro numa casa grande demais pro meu gosto, não tenho amizade com nenhuma das empregadas e costumava dormir com o antigo motorista. Pra ele não contar ao meu pai as coisas que eu fazia quando estava fora de casa. Só pro meu pai não encher o meu saco.
Eu odeio meu pai. E sinto em dizer algo sobre ele nisto aqui. Seria melhor pular esta parte e fingir que isso simplesmente não está acontecendo. Mas não posso evitar. Ele me inferniza e faz cada segundo da minha vida valer menos a pena. Nos odiamos, mas fingimos que está tudo bem durante o café da manhã.
Gosto de ler antes de dormir, fumo maconha pra relaxar e saio para me embebedar com Angelina e Pedro. Meus amigos-amantes. Acho que está tudo bem, tirando a minha tentativa de suicídio há duas semanas. Consigo voltar às coisas de costume e viver perigosamente o resto dos meus dias sem esperar grande coisa.
Porque não há nada por vir. Entendam. Eu só quero mais um gole de vodka ouvindo coming down. Remontando minha vida num daqueles romances do século XIX, onde o mocinho dá um tiro na testa no final. Trágico, típico. Nada tão assustador.
Sem culpas. Sem dor. Só o receio de ser expulsa da escola por mal comportamento. Um dia o Fernando me quebra de pancada. Isso seria peculiar vindo de um homem que vive controlando a raiva que sente. Os sentimentos que sente. Eu rasgo minha pele para que esses sentimentos fluam de verdade, por isso eu sei que estou acima do meu pai. Ele não tem a coragem que eu tenho. Ele não faria as coisas que eu fiz.
Porque ele é parecido com muitas pessoas. As mesmas pessoas que estamos acostumadas a lidar todos os dias. Engolindo sentimentos, situações, fatos. Ninguém coloca nada pra fora.  Ninguém ousa encher a cara pra desafogar a inquietação. Nem fuma porra nenhuma pra controlar a ansiedade. Poucos abrem fendas no corpo pra liberar o choro da alma.
Eu sou daquelas que coopera com a baderna. Eu sou aquela que vai presa. A sem coração. A bêbada irritada. A garota sem regras. Eu sou aquilo que querem que eu seja, dependendo da ocasião.
Muito prazer.


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