Não gosto de ruas movimentadas e de televisão. Sou
uma jovem alcoólatra e me chamo Helena. Moro numa casa grande demais pro meu
gosto, não tenho amizade com nenhuma das empregadas e costumava dormir com o
antigo motorista. Pra ele não contar ao meu pai as coisas que eu fazia quando
estava fora de casa. Só pro meu pai não encher o meu saco.
Eu odeio meu pai. E sinto em dizer algo sobre ele
nisto aqui. Seria melhor pular esta parte e fingir que isso simplesmente não
está acontecendo. Mas não posso evitar. Ele me inferniza e faz cada segundo da
minha vida valer menos a pena. Nos odiamos, mas fingimos que está tudo bem
durante o café da manhã.
Gosto de ler antes de dormir, fumo maconha pra
relaxar e saio para me embebedar com Angelina e Pedro. Meus amigos-amantes.
Acho que está tudo bem, tirando a minha tentativa de suicídio há duas semanas.
Consigo voltar às coisas de costume e viver perigosamente o resto dos meus dias
sem esperar grande coisa.
Porque não há nada por vir. Entendam. Eu só quero
mais um gole de vodka ouvindo coming
down. Remontando minha vida num daqueles romances do século XIX, onde o
mocinho dá um tiro na testa no final. Trágico, típico. Nada tão assustador.
Sem culpas. Sem dor. Só o receio de ser expulsa da
escola por mal comportamento. Um dia o Fernando me quebra de pancada. Isso
seria peculiar vindo de um homem que vive controlando a raiva que sente. Os
sentimentos que sente. Eu rasgo minha pele para que esses sentimentos fluam de
verdade, por isso eu sei que estou acima do meu pai. Ele não tem a coragem que
eu tenho. Ele não faria as coisas que eu fiz.
Porque ele é parecido com muitas pessoas. As mesmas
pessoas que estamos acostumadas a lidar todos os dias. Engolindo sentimentos,
situações, fatos. Ninguém coloca nada pra fora.
Ninguém ousa encher a cara pra desafogar a inquietação. Nem fuma porra nenhuma
pra controlar a ansiedade. Poucos abrem fendas no corpo pra liberar o choro da alma.
Eu sou daquelas que coopera com a baderna. Eu sou aquela
que vai presa. A sem coração. A bêbada irritada. A garota sem regras. Eu sou aquilo
que querem que eu seja, dependendo da ocasião.
Muito prazer.
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