Eu queria uma daquelas pílulas adocicadas e
coloridas. Aquelas que a Alice guarda no país das maravilhas. Pílulas de
esquecimento eterno. De alegria eterna. Estou longe de casa, embora rediga esta
lamentação sentada na cama do meu quarto. A brisa da madrugada me tirou o sono
e fez o rivotril parecer um remédio bobo. Ninguém pediu esmolas hoje, apenas a
mesma ladainha de que eu vou passar por esta dor e de que vou vencer no fim das
contas. Me desanima pensar que vou superar tudo que houve, porque criar
expectativas é o primeiro passo para uma queda vergonhosa. E eu não vou superar
nada.
Estou flutuando acima da minha cabeça. Sou uma
porta. Um quadro. Sou um pedaço de madeira esculpido em formato de coração.
Tenho sentido dores na alma. Dores que não me deixam descansar a noite e que
permeiam meus sonhos. Hoje eu vi o quanto foi deixado para trás. Uma vida. Uma
história. Pessoas que eu não sabia amar tanto. Ninguém lembra, mas aquelas ruas
eram minhas entranhas. Aquele lugar era meu santuário. Guardo na cabeça a sua
voz me guiando pelos caminhos. Sua lembrança sorrindo para mim e me comprando
bolo de chocolate.
Estou destruída. Mas arrisco sorrisos. Arrisco
brincadeiras e mensagens de motivação. Mas por dentro... se alguém pudesse ver
por dentro. Está tudo manchado de sangue. Foi uma carnificina. Eu não sabia que
psicologia me causaria tanta dor. Não sabia que largar a faculdade e um
namorado fosse o motivo motriz de uma morte espiritual. Me sinto fracassada. Me
sinto péssima. Diante de uma coisa que não pode ser consertada. Diante de uma
lápide. A minha lápide. Prendo o choro, porque há pessoas demais a minha volta.
Prendo o ar nos pulmões e tento não gritar. Estou presa em lembranças. Presa num
história sem personagens.
Meu coração dói. Meus olhos ardem. Estou indo para
longe. Não quero mais sentir essa dor. Alivio a angustia enquanto choro palavras.
Alivio a tristeza enquanto penso que foi melhor assim. Sem bebidas e sem amor/ódio.
Só uma Jéssica vazia, solitária e que tenta dar bons conselhos. Nada demais. Apenas
eu, com minhas pílulas coloridas e imaginárias.
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