sexta-feira, 17 de agosto de 2012

A ponte


Paro e penso no que escrever. Tenho que dar a volta num gigantesco vazio e tentar enxergar depois da neblina. Ouço o eco de uma frase sem sentido, sento num lugar qualquer e me prostro a pensar. Vagamente, eu me distancio do meu corpo e começo a escapar de mim, olhando as imagens embaçadas das nuvens. Não demora muito e caio de volta à terra.  Tenho a sensação de que estou morta.
Todos estão à espera. Mas eu não chego. Dobro esquinas, desço ladeiras, passo por encruzilhadas. Não posso chegar. Não estou pronta. Decidi melhorar, mas é cedo para reencontros. Tenho uma rosa murcha atada às mãos. Uma historia sobre alguém que morreu de tristeza e uma flecha suja de sangue.
Estamos indo pelo mesmo caminho. Mas não nos falamos. E esse silêncio me puxa pra baixo, eu me afogo. Perco os sentidos, continuo andando. Agora penso na neblina, no vazio. Me sinto cansada. A obstinação me abandona depois da terceira curva. À sós com você, eu me desconheço. Perco o rumo, falo bobagens, eu esqueço que você não se importa.
Deixei um cara legal apodrecer no banco de uma praça. Deixei um gato morto numa rua perto daqui. Gesticulei meu pranto, abrandei as cotoveladas de uma garota que divide o corpo comigo. Prendendo o ar nos pulmões. Tomando os remédios na hora certa. Pensando que preciso sair desse lugar escuro em que eu me meti. Só não quero a vida de antes. Eu não quero a bagunça de antes. Tenho medo de dormir. Não posso dormir. Não preciso dormir. Não dormirei.
Continuo quieta, olhando a neblina e o vazio. Pensando num jeito de atravessar a ponte da sanidade e me encontrar comigo do outro lado. No lado bom da vida.

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