quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Quarto escuro


Estamos sozinhos num quarto escuro. É o terceiro copo e faz muito frio. Ninguém trouxe o jantar, mas avisaram que estariam por perto caso fosse muito necessário. Agora, eu olho meu reflexo no fundo do copo e penso que é sempre necessário que eles estejam perto de mim.
O piso estremece, a sua presença chegou mais cedo. Veio quebrando as coisas, derrubando a porta, grunhindo. Eu me esquivo num canto da minha mente e volto ao meu lugar seguro. Ouço o canto dos pássaros e observo o arco-íris na linha do horizonte. Tem uma inscrição nos seus olhos e eu gosto lê-la.
Um grito morno me puxa para baixo. Devo lembrar que estou amedrontada e que esqueci de tomar uma pílula enquanto ainda era dia. Você me analisa sentado em sua poltrona confortável e diz que eu estou a um passo de finalmente morrer. Suspiro, cansada – você não entende. Eu sou um fantasma e já morri milhares de vezes. Eu sempre estou morrendo quando você olha para mim. Eu estou morta quando penso e seguir em frente.
Ninguém para conversar antes da meia noite. Continua frio. O paraíso cantarolando uma canção idiota num lado do quarto. Eu vejo o diabo se esgueirar para longe, tomando sua vodka, me dando tempo para pensar. No dia seguinte eu me encontro com aquela bela senhora de olhos azuis. Ela vai me ouvir e eu tenho medo. No escuro. Medo de que perceba. E que aumente a dose das pílulas. Medo que me deixe jogada nessa prisão escura. 
A minha vida pulou da janela. Ouço o barulho de algo se quebrando do lado de fora. Aperto o rosto, escondo uma lágrima. O meu carrasco sempre me fará companhia.

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