Estamos sozinhos num quarto escuro. É o terceiro
copo e faz muito frio. Ninguém trouxe o jantar, mas avisaram que estariam por
perto caso fosse muito necessário. Agora, eu olho meu reflexo no fundo do copo
e penso que é sempre necessário que eles estejam perto de mim.
O piso estremece, a sua presença chegou mais cedo.
Veio quebrando as coisas, derrubando a porta, grunhindo. Eu me esquivo num canto
da minha mente e volto ao meu lugar seguro. Ouço o canto dos pássaros e observo
o arco-íris na linha do horizonte. Tem uma inscrição nos seus olhos e eu gosto lê-la.
Um grito morno me puxa para baixo. Devo lembrar que estou
amedrontada e que esqueci de tomar uma pílula enquanto ainda era dia. Você me analisa
sentado em sua poltrona confortável e diz que eu estou a um passo de finalmente morrer.
Suspiro, cansada – você não entende. Eu sou um fantasma e já morri milhares de vezes.
Eu sempre estou morrendo quando você olha para mim. Eu estou morta quando penso
e seguir em frente.
Ninguém para conversar antes da meia noite. Continua
frio. O paraíso cantarolando uma canção idiota num lado do quarto. Eu vejo o diabo
se esgueirar para longe, tomando sua vodka, me dando tempo para pensar. No dia seguinte
eu me encontro com aquela bela senhora de olhos azuis. Ela vai me ouvir e eu tenho
medo. No escuro. Medo de que perceba. E que aumente a dose das pílulas. Medo que
me deixe jogada nessa prisão escura.
A minha vida pulou da janela. Ouço o barulho de algo
se quebrando do lado de fora. Aperto o rosto, escondo uma lágrima. O meu carrasco
sempre me fará companhia.
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