Agora, um ruído. Depois da nota. Ela fechou os olhos
e pulou. De baixo pra cima, pensando nos cacos de vidro. Eu a deixei por fora,
e tranquei a porta. Comia uma fatia de medo, açucarado com geleia azeda. Ontem
você disse que era tarde para ligações apaixonadas. Desculpe.
Tenho perdido a linha. Agora que tudo tem parecido
incolor. Eu deito na cama e penso em tomar muitos goles de você. Ouvindo a
nossa canção de adeus e vendo fotos de pessoas mortas. É sempre o mesmo
pensamento repetido. Eu me seguro, abraço o corpo e tento não alcançar a
segunda gaveta. É difícil ter um nome sujo. É difícil não sair do escuro. É
difícil escrever sentimentos.
Ele brinca de adivinhar os números. Pulando de casa
em casa como se fosse uma criança birrenta. Depois ele acha a garota certa e
diz a ela que eu infernizei sua vida. Não respeita uma bêbada quase regenerada.
Eu sei... eu sei que ele fala mal de mim pelas costas. O cara da terapia não
acredita em mim. E a minha mãe também. E acho que ninguém acredita. É um disfarce
para um gigantesco complô operante.
Querem me ver morta. Eu com o nome sujo e os braços
amarrados. É um gigantesco amontoado de ódio. Pra não fazer sentido... eu pingo
minhas lágrimas sobre as folhas de papel amassado e tento ler as palavras com a
sua letra. Ansiedade. Não, porra. Ali
está escrito morte. Em letras grandes.
E depois eu ouço uma gargalhada. Os olhos acesos de alguém que eu amava, longe de
mim. Brilhando no escuro. Essas coisas brilham. Esses sentimentos doem. Querem me
ver morta.
Anotando pistas para a solução do crime. Sem entender
as equações. Sem completar os raciocínios. Eu preciso comprar a ração do coelho.
E fazer sentido. E mudar de nome. E não sair da cama. Longe, essas coisas brilham.
Ela pulou e trancou a porta. Do lado de dentro. Essas coisas no escuro. Esses sentimentos
me engolem. Ansiedade. Não... alguém errou
o último algarismo.
Você errou.
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