domingo, 29 de julho de 2012

Maçãs geladas


Me deixaram sozinha com uma senhora numa cadeira de balanço. Eu sei que somos iguais, mas tenho me perguntado quanto tempo vai demorar até que uma de nós duas morra. Acho que ela me deixará primeiro... temo que o tempo dela seja menor que o meu. Se ela morrer... Quem me olhará? E quem me oferecerá maçãs geladas? Quem vai olhar para mim e resmungar, esse gato chora demais?
Todos vão embora depois que eu desperto. E continuam se afastando enquanto o resto do tempo passa. Eu amoleci e enrijeci os músculos da face. Recebo ligações e mensagens de insulto e tudo que faço é tentar entender o que fiz de errado. Eu aceito tapas. Eu deveria estar zangada, mas não consigo me exasperar com isso.
Não com isso.
A minha raiva acorda em horas indevidas e fica comigo até as pessoas ficarem com medo das minhas atitudes. Ela é uma velha louca. Ela fala sozinha. Ela ri do vento. E soca paredes. Chuta paredes. Xinga a mãe. À noite, eles têm medo que ela faça algo.
A velha senhora ressona em sua posição confortável. Eu prendo o choro e tento acreditar que ela estará viva amanhã, para me contar seus sonhos. Nós nos faremos companhias, seremos a sobra. Nós veremos o fim do mundo.

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