Os meus pais discutem sobre quem é o culpado por eu
ser assim. Eu finjo que não ouço, mas eles replicam e jogam a culpa de uma lado
para o outro, até finalmente conseguirem me atingir.
Minha mãe chora, cansada de ouvir minhas
lamentações. E eu sei que no fundo ela se arrepende de ter me colocado no
mundo. Ela me vê na cama chorando, e diz, num tom zangado, quer chorar? Então chora. Eu não sirvo pra nada nessa porra dessa casa
mesmo, pode chorar. Eu saio batendo a porta e fujo pra algum lugar isolado.
Longe deles.
Eu não sei lidar com perdas e rejeições. Eu tento
levar numa boa, mas me sinto tão impotente. Eu choro, mas queria me jogar do
segundo andar. Queria cortar os pulsos bem fundo, rasgar minha jugular. Tenho
pensado seriamente que a morte poderia amenizar a forma dolorosa com que tenho
levado a vida. Me imagino morta, estirada no chão, e um alívio eminente surge
com o pensamento. Se eu tomasse um gole de coragem, eu com certeza me mataria.
Mas penso na hipótese de fracassar. Lembro dos meus
pais discutindo sobre o suposto culpado por eu ser desajustada, sinto que seria
uma grande vergonha. Daí não me deixaria arrumar um emprego, eu nem poderia
largar os remédios e voltar a encher a cara. Não. Eu seria uma suicida para
sempre. Eles discutiriam pelo resto da vida, tentando descobrir o maldito
culpado pela minha morte.
Ela quer desistir de mim. Mãe, você não precisa ir
embora pra ficar distante. Nem gritar comigo pra descarregar sua maternidade
frustrada. Essa frescura que você acha que eu tenho não vai se curar com seus
gritos. Eu vou gritar também e nós vamos discutir feio. E eu não quero brigar
com você.
Eu não quero que discutam por minha causa. Eu só
queria que vocês chorassem ao meu lado e não tentassem minimizar a dor que eu
sinto. Porque ela é intensa, forte e grandiosa. Antes as minhas lágrimas que o
meu corpo ensanguentado no quarto.
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