quinta-feira, 19 de julho de 2012

Quem é o culpado?


Os meus pais discutem sobre quem é o culpado por eu ser assim. Eu finjo que não ouço, mas eles replicam e jogam a culpa de uma lado para o outro, até finalmente conseguirem me atingir.
Minha mãe chora, cansada de ouvir minhas lamentações. E eu sei que no fundo ela se arrepende de ter me colocado no mundo. Ela me vê na cama chorando, e diz, num tom zangado, quer chorar? Então chora. Eu não sirvo pra nada nessa porra dessa casa mesmo, pode chorar. Eu saio batendo a porta e fujo pra algum lugar isolado. Longe deles.
Eu não sei lidar com perdas e rejeições. Eu tento levar numa boa, mas me sinto tão impotente. Eu choro, mas queria me jogar do segundo andar. Queria cortar os pulsos bem fundo, rasgar minha jugular. Tenho pensado seriamente que a morte poderia amenizar a forma dolorosa com que tenho levado a vida. Me imagino morta, estirada no chão, e um alívio eminente surge com o pensamento. Se eu tomasse um gole de coragem, eu com certeza me mataria.
Mas penso na hipótese de fracassar. Lembro dos meus pais discutindo sobre o suposto culpado por eu ser desajustada, sinto que seria uma grande vergonha. Daí não me deixaria arrumar um emprego, eu nem poderia largar os remédios e voltar a encher a cara. Não. Eu seria uma suicida para sempre. Eles discutiriam pelo resto da vida, tentando descobrir o maldito culpado pela minha morte.
Ela quer desistir de mim. Mãe, você não precisa ir embora pra ficar distante. Nem gritar comigo pra descarregar sua maternidade frustrada. Essa frescura que você acha que eu tenho não vai se curar com seus gritos. Eu vou gritar também e nós vamos discutir feio. E eu não quero brigar com você.
Eu não quero que discutam por minha causa. Eu só queria que vocês chorassem ao meu lado e não tentassem minimizar a dor que eu sinto. Porque ela é intensa, forte e grandiosa. Antes as minhas lágrimas que o meu corpo ensanguentado no quarto.


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