domingo, 8 de julho de 2012

Sem você


Lavei o rosto e tirei os sorrisos fora. Me despi da máscara que me fizeram usar desde que eu acordei. Tanta gente pedindo a Deus um pouco de paz interior... Eu acho que não consigo mais pedir alguma coisa. O que sai dos meus lábios é uma oração sem nexo. Um balbuciar rústico, que nem eu mesma entendo. Eu paro e tento voltar ao passado, pra não errar de novo. Mas não há retorno. Continuo quieta, com as palavras erradas na ponta da língua.
Você me trouxe uma rosa desbotada. Assolou a minha vida. Você foi a minha peste negra. Amor... tão delicado num caixão ao lado das flores... Ninguém acredita que você está morto. Nem eu. Daí eu fico quieta de novo, no meio daquela gente vestida de preto, e tento olhar nos seus olhos fechados. E mirar um olhar de que sei a verdade. Não gosto de como você descansa. Eu temo que você me deixe de verdade.
Levante-se.
Um rugido e uma dor no fundo do peito. Tirando a maquiagem enquanto choro na frente do espelho. Me perguntando onde eu deixei aqueles sorrisos descartáveis e aquela felicidade insana. Deixaram-me sozinha. Com os pratos sujos. O coração pulsando sobre a cama, ensanguentado. Ainda é noite. E não amanhece. E o seu velório é uma festa que eu não participo. Porque a sua ausência é o meu decreto de morte. É o meu desfalecer. Eu caio sem você por perto.
Sem você. Eu volto ao fundo do poço. E começo a cavar sem pensar nas consequências. Não me deixe tomar os remédios!

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