Lavei o rosto e tirei os sorrisos fora. Me despi da
máscara que me fizeram usar desde que eu acordei. Tanta gente pedindo a Deus um
pouco de paz interior... Eu acho que não consigo mais pedir alguma coisa. O que
sai dos meus lábios é uma oração sem nexo. Um balbuciar rústico, que nem eu
mesma entendo. Eu paro e tento voltar ao passado, pra não errar de novo. Mas
não há retorno. Continuo quieta, com as palavras erradas na ponta da língua.
Você me trouxe uma rosa desbotada. Assolou a minha
vida. Você foi a minha peste negra. Amor... tão delicado num caixão ao lado das
flores... Ninguém acredita que você está morto. Nem eu. Daí eu fico quieta de
novo, no meio daquela gente vestida de preto, e tento olhar nos seus olhos
fechados. E mirar um olhar de que sei a verdade. Não gosto de como você
descansa. Eu temo que você me deixe de verdade.
Levante-se.
Um rugido e uma dor no fundo do peito. Tirando a
maquiagem enquanto choro na frente do espelho. Me perguntando onde eu deixei
aqueles sorrisos descartáveis e aquela felicidade insana. Deixaram-me sozinha.
Com os pratos sujos. O coração pulsando sobre a cama, ensanguentado. Ainda é
noite. E não amanhece. E o seu velório é uma festa que eu não participo. Porque
a sua ausência é o meu decreto de morte. É o meu desfalecer. Eu caio sem você por
perto.
Sem você. Eu volto ao fundo do poço. E começo a cavar
sem pensar nas consequências. Não me deixe tomar os remédios!
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