Você me guardou na prateleira. Acho que foi excesso
de uso, não sei explicar. Você bateu a porta e não voltou para o jantar. Agora
eu deito sozinha e fico pensando em quando você me ajudava a dormir. É um
passado que me ronda e rosna. Arisco, vivo, ameaçador. Sem você nessas noites
monótonas, eu sou apenas uma escritora louca, sem horário pra acabar com seus
escritos desorganizados.
Eu sei que você não irá voltar. E que as coisas não
serão como estavam acostumadas a ser. Tenho uma entrevista de emprego e você
tem uma nova garota. Parece que você foi bem rápido, é um garoto ávido. Nunca
duvidei disso em você. Eu sempre soube que você sairia com uma desculpa
esfarrapada e nunca mais voltaria. Eu soube que estendia a mão a um traidor e
não ouviria desculpas depois.
Pois bem, nós sabemos que não somos mais nada. Mas
tenho a impressão de que deixei meus óculos na sua mochila. Eu acho que roubei
sua sorte quando puxei seu nariz. Suguei a sua energia com aquele beijo
desmedido. Você deve entender que eu roubo coisas. Eu roubei sua paz, seu
juízo, sua paciência. Estive roubando atenção, mas não funcionou como o
esperado.
Porque estou sozinha e envergada. Tenho uma caixa de
recordações cortantes e muitas coisas para chorar. Eu sou velha e você é um
jovem menino de engenho. Boa sorte na sua caminhada. Voltarei aos meus lençóis
e às minhas orações bobas.
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