Parece uma manhã aconchegante. Devo dizer que dormir
demais por causa do rivotril que eu tomei escondido, ontem à noite. Hoje eu me
levantei como um zumbi, migrando para a cama da minha mãe, com o mesmo pijama
suado.
Foda-se o coelho e se eu devo alimentá-lo. Não me
importo mais. Quero dormir. Mesmo sabendo que vou ter pesadelos terríveis
quando encostar a cabeça no travesseiro. Vou iniciar uma paralisia do sono e
receber a visita de satã. Ele vai se esgueirar até o meu corpo e me estuprar,
como tem feito das últimas vezes.
Então eu acordo, choro e me arrependo de ter
sucumbido àquele sono irresistível. É o jeito que eles encontram de entrar no
seu corpo. Num sonho bobo seu, eles vão surgir do nada e te deixar amedrontado.
Vão te fazer implorar pelo despertar e quando você abrir os olhos, vai duvidar
se está realmente acordado. E essa dúvida vai te acompanhar por muitos dias. E
vai te roubar o sono durante a noite.
Daí vem aquele resto, que é quando pensam que você
está ficando louco. Não se engane. Não fraqueje. Guarde seus medos. Contenha
seus ataques de alegria e de raiva, pois tudo que você faz é milimetricamente
observado.
A minha mãe me olha estranho quando estou feliz de
mais. Isso me angustia. O que ela está
pensando de mim? Porque me olha assim? E porque não me dá atenção? Eles não
se aproximam muito. Te deixam livre para enlouquecer e lhe juro, morrem de medo
quando você tem um ataque de raiva. Eles não sabem como agir com você. Eles
acreditam que a porra do remédio faz efeito, mas não acontece nada demais.
Pode matar alguém, essa é a nossa natureza, meu caro
amigo bipolar.
E ninguém acredita no que dizemos. Então foda-se.
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